Solenidade de Todos os Santos
1 de Novembro de 2016
EVANGELHO – Mt 5,1-12
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
ao ver as
multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os
discípulos e Ele começou a
ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados
os pobres em espírito,
porque deles é o
reino dos Céus.
Bem-aventurados
os humildes,
porque possuirão
a terra.
Bem-aventurados
os que choram,
porque serão
consolados.
Bem-aventurados
os que têm fome e sede de justiça,
porque serão
saciados.
Bem-aventurados
os misericordiosos,
porque alcançarão
misericórdia.
Bem-aventurados
os puros de coração,
porque verão a
Deus.
Bem-aventurados
os que promovem a paz,
porque serão
chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados
os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o
reino dos Céus.
Bem-aventurados
sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem,
vos perseguirem
e, mentindo,
disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e
exultai,
porque é grande
nos Céus a vossa recompensa».
AMBIENTE
![]() |
| Galiléia - Monte das Bem-Aventuranças |
Depois de dizer quem é Jesus (cf. Mt 1,1-2,23) e de
definir a sua missão (cf. Mt 3,1-4,16), Mateus vai apresentar a concretização
dessa missão: com palavras e com gestos, Jesus propõe aos discípulos e às
multidões o “Reino”. Neste enquadramento, Mateus propõe-nos hoje um discurso de
Jesus sobre o “Reino” e a sua lógica.
Uma característica importante do Evangelho segundo Mateus
reside na importância dada pelo evangelista aos “ditos” de Jesus. Ao longo do
Evangelho segundo Mateus aparecem cinco longos discursos (cf. Mt 5-7; 10; 13;
18; 24-25), nos quais Mateus junta “ditos” e ensinamentos provavelmente
proferidos por Jesus em várias ocasiões e contextos. É provável que o autor do
primeiro Evangelho visse nesses cinco discursos uma nova Lei, destinada a
substituir a antiga Lei dada ao Povo por meio de Moisés e escrita nos cinco
livros do Pentateuco.
O primeiro discurso de Jesus – do qual o Evangelho que nos
é hoje proposto é a primeira parte – é conhecido como o “sermão da montanha”
(cf. Mt 5-7). Agrupa um conjunto de palavras de Jesus, que Mateus coleccionou
com a evidente intenção de proporcionar à sua comunidade uma série de
ensinamentos básicos para a vida cristã. O evangelista procurava, assim,
oferecer à comunidade cristã um novo código ético, uma nova Lei, que superasse
a antiga Lei que guiava o Povo de Deus.
Mateus situa esta intervenção de Jesus no cimo de um
monte. A indicação geográfica não é inocente: transporta-nos à montanha da Lei
(Sinai), onde Deus Se revelou e deu ao seu Povo a antiga Lei. Agora é Jesus,
que, numa montanha, oferece ao novo Povo de Deus a nova Lei que deve guiar
todos os que estão interessados em aderir ao “Reino”.
As “bem-aventuranças” que, neste primeiro discurso, Mateus
coloca na boca de Jesus, são consideravelmente diferentes das
“bem-aventuranças” propostas por Lucas (cf. Lc 6,20-26). Mateus tem nove
“bem-aventuranças”, enquanto que Lucas só apresenta quatro; além disso, Lucas
prossegue com quatro “maldições”, que estão ausentes do texto mateano; outras
notas características da versão de Mateus são a espiritualização (os “pobres”
de Lucas são, para Mateus, os “pobres em espírito”) e a aplicação dos “ditos”
originais de Jesus à vida da comunidade e ao comportamento dos cristãos. É
muito provável que o texto de Lucas seja mais fiel à tradição original e que o
texto de Mateus tenha sido mais trabalhado.
MENSAGEM
As “bem-aventuranças” são fórmulas relativamente
frequentes na tradição bíblica e judaica. Aparecem, quer nos anúncios
proféticos de alegria futura (cf. Is 30,18; 32,20; Dn 12,12), quer nas acções
de graças pela alegria presente (cf. Sl 32,1-2; 33,12; 84,5.6.13), quer nas
exortações a uma vida sábia, reflectida e prudente (cf. Prov 3,13; 8,32.34; Sir
14,1-2.20; 25,8-9; Sl 1,1; 2,12; 34,9). Contudo, elas definem sempre uma
alegria oferecida por Deus.
As “bem-aventuranças” evangélicas devem ser entendidas no
contexto da pregação sobre o “Reino”. Jesus proclama “bem-aventurados” aqueles
que estão numa situação de debilidade, de pobreza, porque Deus está a ponto de
instaurar o “Reino” e a situação destes “pobres” vai mudar radicalmente; além
disso, são “bem-aventurados” porque, na sua fragilidade, debilidade e
dependência, estão de espírito aberto e coração disponível para acolher a
proposta de salvação e libertação que Deus lhes oferece em Jesus (a proposta do
“Reino”).
As quatro primeiras “bem-aventuranças” referidas por
Mateus (vers. 3-6) estão relacionadas entre si. Dirigem-se aos “pobres” (as
segunda, terceira e quarta “bem-aventuranças” são apenas desenvolvimentos da
primeira, que proclama: “bem-aventurados os pobres em espírito”). Saúdam a
felicidade daqueles que se entregam confiadamente nas mãos de Deus e procuram
fazer sempre a sua vontade; daqueles que, de forma consciente, deixam de
colocar a sua confiança e a sua esperança nos bens, no poder, no êxito, nos
homens, para esperar e confiar em Deus; daqueles que aceitam renunciar ao
egoísmo, que aceitam despojar-se de si próprios e estar disponíveis para Deus e
para os outros.
Os “pobres em espírito” são aqueles que aceitam renunciar,
livremente, aos bens, ao próprio orgulho e auto-suficiência, para se colocarem,
incondicionalmente, nas mãos de Deus, para servirem os irmãos e partilharem
tudo com eles.
Os “mansos” não são os fracos, os que suportam
passivamente as injustiças, os que se conformam com as violências orquestradas
pelos poderosos; mas são aqueles que recusam a violência, que são tolerantes e
pacíficos, embora sejam, muitas vezes, vítimas dos abusos e prepotências dos
injustos… A sua atitude pacífica e tolerante torná-los-á membros de pleno
direito do “Reino”.
Os “que choram” são aqueles que vivem na aflição, na dor,
no sofrimento provocados pela injustiça, pela miséria, pelo egoísmo; a chegada
do “Reino” vai fazer com que a sua triste situação se mude em consolação e
alegria…
A quarta bem-aventurança proclama felizes “os que têm fome
e sede de justiça”. Provavelmente, a justiça deve entender-se, aqui, em sentido
bíblico – isto é, no sentido da fidelidade total aos compromissos assumidos
para com Deus e para com os irmãos. Jesus dá-lhes a esperança de verem essa
sede de fidelidade saciada, no Reino que vai chegar.
O segundo grupo de “bem-aventuranças” (vers. 7-11) está
mais orientado para definir o comportamento cristão. Enquanto que no primeiro
grupo se constatam situações, neste segundo grupo propõem-se atitudes que os
discípulos devem assumir.
Os “misericordiosos” são aqueles que têm um coração capaz
de compadecer-se, de amar sem limites, que se deixam tocar pelos sofrimentos e
alegrias dos outros homens e mulheres, que são capazes de ir ao encontro dos
irmãos e estender-lhes a mão, mesmo quando eles falharam.
Os “puros de coração” são aqueles que têm um coração
honesto e leal, que não pactua com a duplicidade e o engano.
Os “que constroem a paz” são aqueles que se recusam a
aceitar que a violência e a lei do mais forte rejam as relações humanas; e são
aqueles que procuram ser – às vezes com o risco da própria vida – instrumentos
de reconciliação entre os homens.
Os “que são perseguidos por causa da justiça” são aqueles
que lutam pela instauração do “Reino” e são desautorizados, humilhados,
agredidos, marginalizados por parte daqueles que praticam a injustiça, que
fomentam a opressão, que constroem a morte… Jesus garante-lhes: o mal não vos
poderá vencer; e, no final do caminho, espera-vos o triunfo, a vida plena.
Na última “bem-aventurança” (vers. 11), o evangelista
dirige-se, em jeito de exortação, aos membros da sua comunidade que têm a
experiência de ser perseguidos por causa de Jesus e convida-os a resistir ao
sofrimento e à adversidade. Esta última exortação é, na prática, uma aplicação
concreta da oitava “bem-aventurança”.
No seu conjunto, as “bem-aventuranças” deixam uma mensagem
de esperança e de alento para os pobres e débeis. Anunciam que Deus os ama e
que está do lado deles; confirmam que a libertação está a chegar e que a sua
situação vai mudar; asseguram que eles vivem já na dinâmica desse “Reino” onde
vão encontrar a felicidade e a vida plena.

Sem comentários:
Enviar um comentário