Domingo dia 20 de Novembro
Solenidade de Cristo Rei
Meditação de Mons. Pizzaballa sobre o Evangelho
Estamos no fim do Ano Litúrgico, e como sempre
concluímo-lo celebrando a Solenidade de Cristo Rei.
Para podermos compreender melhor o que é o Reino de Deus,
o que significa o facto de Jesus ser Rei, a liturgia de hoje convida-nos a
meditarmos sobre acontecimento da cruz e a pararmos no que se passou nesse
momento na vida de Jesus (Lc. 23, 35-43). É significativo que a Igreja nos
proponha esta passagem para celebrar o Reino de Cristo no mundo: este momento
de extrema fragilidade de Jesus, da derrota, do fracasso humano que é a cruz.
Poderíamos pensar exactamente o contrário. No entanto celebrar Cristo Rei
significa celebrar o seu triunfo e a sua vitória. É assim. E o triunfo passa
pela cruz.
Tentemos compreender o que a Igreja nos quer dizer ao
escolher esta passagem, qual é a verdade que ela nos procura dizer.
No Clavário, encontramos três personagens diferentes,
Jesus Cruxificado entre dois criminosos condenados. Aos pés da cruz estão
também os “chefes” que o ridicularizam, assim como soldados romanos.
O refrão que por todo o lado ouvimos dirigido a Jesus é
sempre o mesmo: “Salva-te a ti mesmo” dizem-lhes os chefes (LC. 23,35), depois
os soldados (Lc. 23,37) e por fim os dois malfeitores (Lc. 23,39).
Esta frase é repetida três vezes como o foram, no início
da sua vida púbica, as três tentações no deserto Lc. 4, 1-13), onde o diabo
sugere a Jesus a possibilidade de se fazer rei e de se salvar a si próprio, de
procurar a sua própria glória e considerar a sua situação filial como sendo o
poder absoluto.
Salvar-se a si mesmo é a lei dos governos terrenos que
estão constantemente a fazer face à perceção da sua própria fragilidade e são
muitas vezes governados pelo medo. É o medo que nos leva a procurar evitar a
morte a todo o preço e a suprimirmo-la do nosso horizonte, a um “salvarmo-nos a
nós mesmos” que nos engana fazendo-nos acreditar que é resultado das nossas
forças. Salvar-se a si mesmo é também a lei do individualismo, daquele que,
como o criminoso, sempre agiu de forma autossuficiente ao longo de toda a sua
vida e que na cruz continua a comportar-se da mesma forma.
Como, aos pés da cruz, os chefes e os soldados são de uma
certa forma crucificados pelo seu próprio egoísmo.
E a mesma necessidade de nos salvarmos a nós próprios
torna-se no que há de mais importante na nossa vida e assim ficamos
prisioneiros dela.
O reino de Deus toca também na fragilidade e na morte, mas
de uma maneira totalmente diferente: não a evita, não a nega, mas também não a
absolve, mas não lhe dá o direito de nos separar e Deus.
Assim é de forma simbólica que o Reino de Deus se cumpre
precisamente na cruz, lugar da maior debilidade e da dor extrema.
É aqui que um homem frágil, na realidade um ladrão, se
entrega totalmente a Deus. Até este momento era um criminoso, mas então
entregou-se a Deus não pela sua força, mas pela sua inocência, pela sua
bondade. Ele tem confiança Nele, não para que o faça escapar da morte, mas para
que se lembre dele, que se preocupe com ele. Ele só deseja uma relação com Ele.
Ele percebe que é possível depositar a sua confiança num
rei que está a morrer, e que este homem, crucificado ao seu lado, é já a
presença de um outro mundo nesta terra.
É esta a realização do Reino de Deus, aquele que Jesus
nunca deixou de pregar, de manifestar por milagres e curas.
O Reino de Deus é realização e realiza-se quando
humildemente aceitamos pertencer-lhe.
A este homem – que morre na cruz com Cristo, que
ressuscita com Ele, e que na Cruz vive o seu baptismo, a sua passagem de
pertença a Cristo – o Cristo que gratuitamente oferece o seu Reino: “hoje,
estarás comigo no Paraíso”.
O Reino, o Paraíso está nesta relação vital com Deus.
Trata-se de uma pertença que é boa, que não domina, que
não esmaga, mas que dá ininterruptamente a vida.
É um Reino de liberdade que se não impõe, que tem uma
lógica nova.
Nós, como os chefes, os soldados e o malfeitor, concebemos
o rei como alguém que mais do qualquer outro, mais do que nós, tem o poder de
tudo fazer e que não conhece nem limites, nem a dor, nem a fraqueza.
Mas hoje, Jesus ensina-nos o que em verdade é “real” e o
que o não é. O silêncio daquele que não maldiz os que lhe causam dano, o perdão,
a confiança daquele que se põe nas mãos de outro e reconhece a sua dependência,
a sua gratidão, a liberdade dos que não pensam só em si, que não se preocupam
com eles, que assumem as consequências das suas próprias escolhas e que até ao
fim amam e servem nesta humilde confiança um Deus infinitamente bom, mesmo no
meio da dor.
Em resumo, trata-se de uma lógica inversa que é própria do
Evangelho, das Bem-Aventuranças, a de Jesus que toma sobre Si a cruz,
mostrando-nos o caminho.
Muitas outras coisas que nos parecem “reais” talvez o não
sejam.
Ou talvez Jesus, o Rei, tenha tornado “reais” tantas
coisas que o não eram ou que o pecado nos impedia de considerar como tais.
+ Pierbbatista

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