O Advento, o
tempo que conduz ao Natal, é o tempo para nos prepararmos para as surpresas de
Deus.
Sabemos que Ele vem e queremos estar preparados para O receber com as
nossas mãos estendidas e os nossos corações abertos. Há dois mil anos,
surpreendeu-nos quando chegou a nós, um Bébé, com as suas fraldas, deitado numa
manjedoura. No Natal perpetuamos a memória deste extraordinário presente
oferecido à Humanidade.
Mas não é só um tempo para nos lembrarmos, mas também
para nos prepararmos porque que Ele virá e que provavelmente nos surpreenderá
de novo. Precisamos das surpresas de Deus. Com estas surpresas, Deus abre-nos
horizontes e dá-nos algo de novo que pode mudar o nosso mundo e a nossa vida.
O ano prestes a
terminar foi um ano difícil, e mais do que nunca precisamos que os nossos
horizontes sejam alargados e a nossa esperança renovada.
1 – A situação
dos cristãos na Síria, no Iraque e no Egipto é uma total tragédia. Nestes
países, que são o berço da nossa civilização, o ciclo vicioso da violência
instalada parece desesperado e sem fim. Todos vimos as imagens, da passada
semana, de Alepo assim como as de toda a região durante estes longos anos de
conflito. A Síria e o Iraque estão destruídos. As guerras e o uso da força não
foram capazes de trazer a paz e a justiça,
só trouxeram mais violência, mais mortos, mais destruição. Estas guerras
terríveis são cegamente alimentadas pelo comércio de armas, pelos jogos de
interesse das potências, pelo fundamentalismo implacável. A paz tem necessidade
de negociações e de soluções políticas. O exército pode ganhar a guerra, mas
para a construção da paz precisamos da política. E não a entrevemos. Muitos
interesses estão em jogo nestas guerras, mas são os pobres e indefesos que
pagaram o preço, e pagaram-no demasiado caro.
2 – Nas nossas
dioceses, na Jordânia, acolhemos milhares de refugiados, de cristãos que
escolheram permanecer fiéis à sua fé, mas também muçulmanos que temiam pelas
suas vidas. A sua angústia, a sua sede de paz têm de se tornar nossas também.
3 – No Egipto, a
comunidade cristã está constantemente ameaçada como vimos, na semana passada, com o
bombardeamento de uma igreja no Cairo: vinte e cinco pessoas foram mortas
durante a missa de domingo. É altura de levantarmos os olhos para o Único capaz
de nos salvar. Temos também a nossa parte de responsabilidade nestas tragédias
devastadoras. As palavras já não são suficientes. Temos de lutar contra a
pobreza e dar um permanente testemunho de misericórdia para revelar ao mundo o
amor e a ternura do nosso Deus.
4 – A nossa
situação na Terra Santa faz eco à do mundo inteiro face a um extremismo
crescente e face ao fundamentalismo. O que nos surpreende é este radicalismo
estar enraizado nas gerações mais novas. Deplorámos inúmeros actos de
vandalismo contra cristãos, cemitérios ou igrejas ao longo de todo o ano. Nós
não só queremos levantar a nossa voz para denunciar tais actos, como queremos
ajudar a encontrar soluções, a abordar, na sua raiz, os problemas para assim
podermos oferecer à juventude um mundo melhor. Na nossa visão, a educação é
fundamental. É a base da construção de um futuro melhor para todos nós. No
entanto as nossas escolas em Israel continuam atravessar uma crise sem
precedentes e nenhuma solução concreta foi dada até agora.
5 – O nosso
futuro parece incerto. Falta-nos perspectiva. Os obstáculos à paz em Israel e
na Palestina persistem assim como a falta de diálogo ou de um compromisso para
uma verdadeira paz baseada na justiça e na segurança são evidentes… Por falta
de unidade e falta de visão de ambos os lados, o ódio e a violência parecem
prevalecer à razão e ao diálogo. Os falsos pretextos e o egoísmo devem ser
postos de lado, os políticos devem olhar com coragem para o seu povo que sofre
e que aspira à paz. Em Cremissan (perto de Belém), o muro foi construído depois
de uma longa luta e apesar dos nossos apelos às autoridades israelitas. A
expropriação das terras das famílias cristãs é um roubo ao seu património.
6 – Em Israel,
enquanto Igreja universal, acolhemos e damos assistência a milhares de
trabalhadores estrangeiros, muitos dos quais cristãos. Tentamos dar de novo a
esperança, mais uma vez com uma atenção muito particular para com os mais
desprovidos, os mais desamparados, as crianças. Abrimos recentemente uma creche
para filhos de migrantes em Jerusalém.
7 - Face a tantos
problemas, devemos assumir as nossas responsabilidades, devemos continuar a
trabalhar para uma mentalidade de paz. A nossa Igreja local, aqui na Terra
Santa, reconhece também a necessidade de uma renovação espiritual e está num
momento de reforma em termos de organização, de administração e de trabalho
pastoral.
8 – E aqui
podemos levantar os olhos e ver alguma luz no horizonte. O Papa Francisco
guia-nos e prega a Boa Nova. No plano internacional, nesta confusão política
que o mundo conhece, o Papa é a única voz clara e profética que podemos ouvir e
na qual podemos ter confiança. Podemos reconhecer a sua voz como a do Bom
Pastor. A sua mensagem é universal.
9 – O Ano da
Misericórdia, que o Papa nos permitiu viver, recentrou a nossa missão de
reforçar a confiança na misericórdia de Deus, Aquele que nunca se cansa de nos
perdoar. Deus é Pai de todos, está sempre à espera de nós e vem até nós. Entre
as Igrejas devemos continuar a caminhar para a unidade.
10 – O restauro
do Túmulo de Jesus em Jerusalém e da Natividade em Belém, realizados graças à
cooperação entre as diferentes confissões, mostraram como somente juntos
podemos construir sobre o rochedo. Enquanto Igreja, continuaremos a trabalhar
sem descanso com as pessoas de boa vontade – judeus, muçulmanos e ateus – para
construirmos pontes, ajudar os mais pobres, educar as crianças, acolher os
refugiados e os sem-abrigo.
Para concluir,
gostaria de sublinhar como, apesar de tudo, continuamos a ter esperança. Esta
esperança é a luz que continuamente nos guia entre as trevas na confusão desta
região e do mundo inteiro. Os nossos corações feridos devem estar preparados
para as surpresas de Deus. E o Natal é, na realidade, o momento de renovarmos a
nossa fé no Deus das surpresas indo a Belém para venerarmos este Deus
aparentemente sem poder: o Menino Jesus. Nas nossas orações temos e teremos
sempre predente este mundo ferido.
+ Pierbattista Pizzaballa
Administrador Apostólico

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