Existe, apesar de ser um problema com contornos sobretudo políticos.
Na sequência da guerra da independência de Israel, em 1948, cerca de 700
mil palestinianos fugiram de suas casas, ou foram forçados a abandoná-las.
Esses palestinianos espalharam-se pelos países da região, tendo sido
construídos campos de refugiados no sul do Líbano, na Cisjordânia, na Jordânia
e na Faixa de Gaza. Muitos desses campos ainda hoje existem, mesmo quando à
vista desarmada pouco ou nada os diferencia de um bairro pobre.
Porque é que, passados quase 70
anos, esta situação se mantém?
Primeiro, porque os países árabes da região, com a excepção parcial da
Jordânia, nunca aceitaram integrar esses refugiados, da mesma forma que não
aceitaram aceitar a própria existência de Israel. Depois porque desde a
primeira hora que os palestinianos reivindicam o chamado “direito de retorno”, isto é, o direito a reocuparem as casas e as
terras que abandonaram precipitadamente em 1947 e 1948.
O “direito de retorno”
tornou-se mesmo num dos mais delicados temas, e num dos mais difíceis, do
processo de paz israelo-palestiniano, e as chaves das antigas casas abandonadas
são hoje um símbolo muitas vezes agitado para efeitos mediáticos pelos
descendentes dos refugiados originais.
Israel argumenta que o problema dos refugiados só existe porque os
países árabes não quiseram integrar os palestinianos deslocados, ao contrário
do que fez Israel, que acolheu e integrou centenas de milhar de judeus que,
depois da independência, saíram ou foram obrigados a sair dos países árabes
onde viviam há muitos séculos, nalguns casos há dois milénios. Israel também
sabe que o retorno dos descendentes dos refugiados alteraria de forma dramática
a composição demográfica do país, ameaçando a sua natureza de Estado judaico.
No século XX, na Europa e no Médio Oriente, houve inúmeros casos de guerras
que terminaram com a deslocação forçada de populações – foi o que sucedeu, por
exemplo, na sequência da guerra entre a Turquia e a Grécia; foi o que sucedeu
aos alemães dos Sudetas e da Polónia Ocidental; foi o que se passou com o
sérvios da Krajina. Houve também gigantescas transferências de populações no
Punjab, quando a Índia se separou do Paquistão.
O
essencial para entender
o
conflito israelo-palestiniano
José
Manuel Fernandes
Observador – 14 de Julho de 2014

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