XXVIII domingo do tempo comum, ano C
9 de Outubro de 2016
EVANGELHO – Lc 17,11-19
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
«Naquele tempo, indo
Jesus a caminho de Jerusalém,
passava entre a Samaria e a Galileia.
Ao entrar numa
povoação,
vieram ao seu
encontro dez leprosos.
Conservando-se a
distância, disseram em alta voz:
«Jesus, Mestre,
tem compaixão de nós».
Ao vê-los, Jesus disse-lhes:
«Ide mostrar-vos
aos sacerdotes».
E sucedeu que no
caminho ficaram limpos da lepra.
Um deles, ao
ver-se curado,
voltou atrás,
glorificando a Deus em alta voz,
e prostrou-se de
rosto por terra aos pés de Jesus
para Lhe
agradecer.
Era um samaritano.
Jesus, tomando a
palavra, disse:
«Não foram dez
que ficaram curados?
Onde estão os
outros nove?
Não se encontrou
quem voltasse para dar glória a Deus
senão este
estrangeiro?»
E disse ao homem:
«Levanta-te e
segue o teu caminho;
a tua fé te
salvou».
O livro do Levítico, no capítulo XIV, conta de forma muito
detalhada cada uma das etapas do ritual a que um leproso se tinha de submeter
para que a sua cura fosse reconhecida. São necessários 31 versículos para
descrever o que o padre devia fazer para purificar os leprosos: um ritual longo
e solene, uma série de gestos, imensas unções, até chegar ao momento culminante
do acontecimento, o sacrifício de um cordeiro.
Terminado o ritual, só então o leproso se podia considerar
de novo puro (porque a lepra tornava impuro aquele que dela sofria) e podia
assim voltar para as tendas e retomar o seu lugar no seio da sociedade.
O significado dos sacrifícios, no Antigo Testamento, é
rico em sentido e muito complexo: simplificando pode-se dizer que na base do
sacrifício e para lá da ideia de purificação e de expiação, há sempre a ideia
de purificação e expiação há também sempre a ideia de “dar”. Dar qualquer coisa
a Deus em sinal de gratidão, uma oferenda em sinal de uma aliança restabelecida.
O que lemos na passagem do Evangelho de hoje reenvia-nos
precisamente para esta passagem do livro do Levítico: dez leprosos encontram
Jesus, suplicam-lhe de longe, pois a lei proibia que chegassem junto de pessoas
saudáveis, e Jesus convida-os a que se aproximem dos padres, em Jerusalém para
se submeterem ao rito prescrito pelo Levítico. Estes põem-se a caminho,
manifestamente curados, mas um deles – um estrangeiro – volta atrás “vendo que
tinha sido curado (v. 15) não vendo assim qualquer necessidade de ir ter com os
padres, como prescrevia a antiga lei, percebe que não é aí que deve ir para
agradecer a Deus. Volta atrás, louvando Deus em voz alta, e lança-se aos pés de
Jesus para lhe agradecer.
Jesus reconhece a sua fé – como em outros episódios do
Evangelho, em que louva a fé dos estrangeiros – e diz-lhe que a sua fé o
salvou.
Que fé? A fé pela qual o leproso estrangeiro compreende
que a partir do momento em que Deus procede desta maneira, ou seja directamente
na vida dos homens, por intermédio de Jesus, mais nenhum sacrifício é necessário.
A partir do momento em que o Reino de Deus está aqui,
entre nós, (Jesus di-lo um pouco mais à frente no versículo 21), não é mais
necessário ir aos padres do templo nem submeter-se a todas as prescrições da
Lei.
O leproso não se dirige ao templo, não tem mais
necessidade de ir fazer sacrifícios, de dar ou levar seja o que for a Deus
porque o próprio Deus veio até ele e salvou-o.
Voltando-se para Jesus, realiza uma outra forma de
sacrifício daquele que vendo-se curado, reconhece a obra de Deus na sua vida e
louva a glória de Deus.
É isto o sacrifício, não dar algo a Deus, mas agradecer
tudo o que Ele nos dá. Este sacrifício está ao alcance de todos: o termo
“estrangeiro” utilizado por Jesus estava gravado no átrio do Templo de
Jerusalém, indicando o limite ente o pátio interior dos pagãos e a parte do
templo reservada aos judeus. O antigo sacrifício não era acessível a todos,
muitos estavam excluídos.
O novo sacrifício, pelo contrário, é para todos. É para os
que sabem reconhecer que a salvação vem de Deus, para os que voltam para Ele,
que Lhe dão graças. O caminho para a purificação já não passa por um rito
exterior, mas pela fé: “A tua fé salvou-te” (v. 19).
E para isto não é necessária uma grande fé – a fé dos
sacrifícios, a observação dos preceitos – mas esta pequena fé, pequena como o
grão de mostarda, como vimos no domingo passado (v. 6): uma fé que sabe
maravilhar-se, uma fé que sabe dar graças.
No entanto – e nós sabemo-lo – a fé dos sacrifícios é a
mais difícil: é o que se vê com Naaman o Sírio mencionado na primeira leitura.
Nesta parte do relato, que ouvimos hoje, diz-se que este estrangeiro está
convencido que por ter sido curado, deve fazer um qualquer gesto ou realizar
uma qualquer expedição, ou dar uma avultada quantidade de dinheiro Ele fica
ofendido quando Eliseu lhe diz para se ir lavar no rio Jordão. E no entanto é
assim, ele não terá de se banhar no Jordão, terá simplesmente de acreditar.
Mas ele também, depois de ter feito sua a fé dos mais
pequenos, vai voltar simplesmente para agradecer: o profeta Eliseu não lhe
exige nenhum presente, pelo contrário recusá-lo-á veementemente…
Assim os sacrifícios não salvam, é a fé na salvação que
vem do sacrifício de Cristo. E o que é belo neste nesta passagem do Evangelho é
que Jesus está a caminho de Jerusalém, como nos diz o evangelista Lucas no
versículo 11.
Poderíamos dizer que o leproso não precisa de ir a
Jerusalém porque o próprio Jesus se dirigia para lá. A verdadeira subida para a
cidade santa para cumprir o sacrifício foi Ele que a fez. E com Ele leva toda a
humanidade ferida, perdida que encontra no seu caminho e que traz para casa.
Uma vez chegado a Jerusalém, o seu sacrifício será o de
dar a sua vida pelo bem de todos aqueles que encontrou no seu caminho, em
perfeita comunhão com a vontade de amor do Pai.
A fé neste amor “purifica” e salva, diz este versículo
referindo-se à carta aos Hebreus: “E graças a esta vontade temos sido
santificados pela oblação do Corpo de Cristo feita uma vez” (Hebreus 10, 10).
Uma última reflexão: nos Evangelistas, encontramos um
outro relato no qual “ o caminho que leva ao sacrifício é interrompido “Quando
trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares que o teu irmão tem alguma
coisa contra ti, deixa a tua oferta diante do altar e vai reconciliar-te primeiro
com o teu irmão e depois vem e apresenta a tua oferta” (Mt. 5, 23-24). Aqui,
mais uma vez, como no Evangelho de hoje, a verdadeira gratidão para com Deus, a
nova oferta não passa mais por um sacrifício, pela observação da lei, mas por
um coração reconhecido e pobre que assim se torna também capaz de misericórdia.
+ Pierbattista

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