sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

«O Menino deitado na manjedoura»

Solenidade de Santa Maria, Mãe de Deus – Ano A
1 Janeiro 2017

EVANGELHO – Lc 2,16-21

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
os pastores dirigiram-se apressadamente para Belém
e encontraram Maria, José
e o Menino deitado na manjedoura.
Quando O viram, começaram a contar
o que lhes tinham anunciado sobre aquele Menino.
E todos os que ouviam
admiravam-se do que os pastores diziam.
Maria conservava todas estas palavras,
meditando-as em seu coração.
Os pastores regressaram, glorificando e louvando a Deus
por tudo o que tinham ouvido e visto,
como lhes tinha sido anunciado.
Quando se completaram os oito dias
para o Menino ser circuncidado,
deram-Lhe o nome de Jesus,
indicado pelo Anjo,
antes de ter sido concebido no seio materno.
 

Bartolomé Esteban Murillo - Adoração dos Pastores

AMBIENTE
O texto do Evangelho de hoje é a continuação daquele que foi lido na noite de Natal: após o anúncio do “anjo do Senhor”, os pastores (destinatários desse anúncio) dirigiram-se a Belém e encontraram o menino, deitado numa manjedoura de uma gruta de animais.

Mais uma vez, Lucas não está interessado em fazer a reportagem do nascimento de Jesus, ou a crónica social das “visitas” que, então, o menino de Belém recebeu; mas está, sobretudo, interessado em apresentar uma catequese que dê a entender (aos cristãos a quem o texto se destina) quem é esse menino e qual a missão de que ele foi investido por Deus. Nesta catequese fica bem claro que Jesus é o Messias libertador, enviado a trazer a paz; e há, também, uma reflexão sobre a resposta que Deus espera do homem.

MENSAGEM
Como pano de fundo do nosso texto está, portanto, a ideia de que, com a chegada de Jesus, atingimos o centro do tempo salvífico… Em Jesus, a proposta libertadora que Deus tinha para nos oferecer veio ao nosso encontro e materializou-se no meio dos homens; o próprio nome (“Jesus” significa “Jahwéh salva”) que foi dado ao menino, por indicação do anjo que anunciou o seu nascimento, aponta nesse sentido. Por outro lado, o facto de essa “boa notícia” ser dada, em primeiro lugar, aos pastores (classe marginalizada, considerada impura, pecadora e muito longe de Deus e da salvação) significa que a proposta de Jesus se destina, de forma especial, aos pobres e marginalizados, àqueles que a teologia oficial excluía e condenava. Diz-lhes que Deus os ama, que conta com eles e que os convoca para fazer parte da sua família.

Definida a questão essencial, atentemos nas atitudes dos intervenientes e na forma como eles respondem à chegada de Jesus…

Em primeiro lugar, repare-se como os pastores, depois de escutarem a “boa nova” do nascimento do libertador, se dirigem “apressadamente” ao encontro do menino. A palavra “apressadamente” sublinha a ânsia com que os pobres e os marginalizados esperam a acção libertadora de Deus em seu favor. Aqueles que vivem numa situação intolerável de sofrimento e de opressão reconhecem Jesus como o único salvador e apressam-se a ir ao seu encontro. É d’Ele e de mais ninguém que brota a libertação por que os oprimidos anseiam. A disponibilidade de coração para acolher a sua proposta é a primeira coisa que Deus pede.

Em segundo lugar, repare-se como os pastores reagem ao encontro com Jesus… Começam por glorificar e louvar a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido: é a alegria pela libertação que se converte em acção de graças ao Deus libertador. Depois, esse louvor torna-se testemunho: quem faz a experiência do encontro com Deus libertador tem, obrigatoriamente, de dar testemunho, a fim de que os outros homens possam participar da mesma experiência gratificante.

Finalmente, atentemos na atitude de Maria: ela “conservava todas estas palavras, meditando-as no seu coração”. É a atitude de quem é capaz de abismar-se com as acções do Deus libertador, com o amor que Ele manifesta nos seus gestos em favor dos homens. “Observar”, “conservar” e “meditar” significa ter a sensibilidade para entender os sinais de Deus e ter a sabedoria da fé para saber lê-los à luz do plano de Deus. É precisamente isso que faziam os profetas.


A atitude meditativa de Maria, que interioriza e aprofunda os acontecimentos, complementa a atitude “missionária” dos pastores, que proclamam a acção salvadora de Deus, manifestada no nascimento de Jesus. Estas duas atitudes definem duas coordenadas essenciais daquilo que deve ser a existência do crente.

domingo, 25 de dezembro de 2016

“Eis que o Senhor está à porta”

Belém
25 de Dezembro de 2016
Noite de Natal
Missa da Meia-Noite

Homilia de Mons. Pizzaballa



“Eis que o Senhor está à porta” (Tiago 5,9)

O Natal é a entrada do Filho de Deus no mundo: Cristo entrou no mundo, veio para junto do Seu povo. E, frente a Ele, há muitas portas que se abrem e outras que se fecham. Neste momento, após o Jubileu da Misericórdia, podemos interpretar o Natal como a porta que Deus tem aberta para sair ao encontro do homem convidando-o a ficar em comunhão com Ele.

No Natal abre-se em primeiro lugar a porta por onde vem o Filho, Emanuel, Deus-connosco. Os céus também se abrem: desde o nascimento até ao Baptismo de Cristo, há a abertura das portas do Céu por onde os anjos saem e entram para anunciar e preparar a vinda do Espírito. Mas acima de tudo, abre o coração divino e humano do Filho: Assim ao chegar ao mundo Cristo diz: “Sacrifícios e ofertas não quiseste, mas um corpo me preparaste; de holocausto e ofertas pelo pecado não te agradaste. Então eu disse: Aqui estou, no livro está escrito a meu respeito: vim para fazer a tua vontade, oh Deus!” (Hebreus 510, 5, 7). Cristo abre de par em par as portas da sua vida dizendo: “Eu sou a porta, quem entra por mim será salvo. Entrará e sairá e encontra pastagens”. (João 19, 9). “Eu sou a porta pela qual os justos entrarão”. (Salmo 10,9).

À porta aberta de Cristo correspondem as portas abertas dos homens e das mulheres desejosos de O deixarem entrar: o coração de Maria e de José, com um “sim” sem hesitação; as portas da casa de Isabel e Zacarias; a generosa caminhada dos pastores e dos reis magos; de Simão e de Ana…

Mas há também as portas que se fecham “Ele veio a sua casa e os seus não o receberam” (João 1, 11). Estão fechados o coração de Herodes, as casas que não têm lugar para os acolher, a vida dos que estão demasiado ocupados a gerir os seus bens para a realização os seus projectos futuros, a impor as suas ideias.

Gosto muito desta imagem da porta: ela evoca, lembra, convida a que se corra o risco da liberdade que se abre e se fecha tornando possível ou impossível a paz que esperamos encontrar e que salva. O nascimento de Cristo e dos cristãos não é, na realidade, uma festa mágica ou sentimental para serem vividas, fechados nas nossas casas, na segurança individual do nosso meio familiar ou social. Não é uma alegria privada, pessoal e indiferente de uma evasão da dura realidade da vida quotidiana, como um parênteses colorido e brilhante numa vida demasiado cinzenta.

O Natal é o anúncio de uma salvação que está à espera de ser acolhida para se realizar. Como Maria depois da anunciação do anjo, como José depois do sonho celeste, como os pastores depois do cântico dos anjos, depois dos Magos depois de terem visto a estrela, também nós somos chamados a pormo-nos a caminho, a estarmos decididos a sair da nossa preguiça e das nossas desculpas para irmos a Belém, para entrarmos num novo espaço de vida e de paz, O Reino que Cristo vai iniciar. A porta está aberta, a nossa liberdade é convidada.

Sei bem que todos nós somos vítimas de um sentimento crescente de insegurança e de desconfiança. As esperanças de paz tantas vezes frustradas, a violência dos ataques recorrentes, dos discursos tão retóricos como ineficientes incitam-nos a que nos barriquemos, a cerrarmos as nossas portas, a instalarmos serviços de vigilância e a fugir em vez de ficar e resistir com confiança e esperança.

Tememos o estrangeiro que bate à nossa porta e chega às fronteiras dos nossos países. As portas fechadas, as fronteiras defendidas mais do que serem escolhas pessoais e políticas são uma metáfora do medo que a dinâmica de violência gera inevitavelmente nos nossos tempos. Temos medo do que se passa no mundo e vemos as nossas esperanças, aqui como em muitos países do mundo, a serem desfeitas pela corrupção, pelo poder do dinheiro, pela violência sectária, pelo medo na Síria, no Iraque, na Egipto, na Jordânia. Mas na nossa Terra Santa a sede de justiça, de dignidade, de verdade e de amor verdadeiro continua a aumentar.

Com efeito, continuamos a recusa e a negar o outro, a vivermos e a pensarmos como se fossemos os únicos a existir, como se não houvesse lugar senão para nós. “Não havia lugar para eles na hospedaria”. (Lucas 2,7). 

Os nossos receios determinam as nossas escolhas e as nossas orientações. Estamos cansados e desorientados por tudo o que se passa à nossa volta e no nosso caminho perdemos todo o sentido de orientação. Não encontramos nenhuma estrela que nos possa guiar.

Não se trata somente de um factor psicológico mas mais precisamente de um fenómeno existencial, uma “psicologia do inimigo” que inevitavelmente se transforma em ideologia, criando um modo de vida agressivo, uma maneira conflituosa de se dirigir aos outros que estão à nossa frente sem esperança de um futuro. Das portas das nossas casas às fronteiras dos estados tudo está fechado no medo, na desconfiança na exclusão e na guerra. Sentimo-nos todos excluídos, bloqueados, separados.

O Natal, no entanto, fala de uma alegria e de uma paz que virão se tivermos vontade de abrir as portas; se partilharmos a boa vontade de Deus que abre em vez de fechar, que dá em vez de tirar, que perdoa em vez de se vingar. Podemos passar da lógica do inimigo à lógica da fraternidade, movidos por um Deus que teve fé no homem antes de nós termos confiança Nele. Se Deus não tem nenhum receio ou desprezo pelo homem (“non horruisti Virginis uterum” Vós não tivestes de vos fazerdes homem” canta um antigo hino da Igreja da Igreja) podemos nós também aprender a confiança corajosa que abre as portas do diálogo e do encontro. A salvação e a paz, o encontro e a concórdia são, com efeito, as graças a invocar junto Daquele que aclamamos, nesta noite santa, como o Príncipe da Paz. Mas estas graças tornam-se autênticas e reais se forem aceites e praticadas por mãos e corações que abrem e que escolhem adoptar uma nova mentalidade, novos comportamentos, novos projectos de uma forma corajosa e generosa, como corajoso e generoso foi Cristo quando veio partilhar a nossa vida dando-nos a Sua.

No nosso país e no mundo, onde os que falam da paz e da vida são numerosos, mas onde só poucos decidem passar o limiar do compromisso e da decisão, a Natividade renova o convite para se abrirem as portas a Cristo que se quer dar a conhecer, e ao outro. Pelos ritos e orações desta Santa Noite o Pai, em Cristo seu Filho, vem mais uma vez ao encontro do homem para lhe perguntar: onde estás? (Genesis 3, 9) e convidá-lo a entrar na casa da fraternidade.

Cruzamos a soleira? Não se trata de um slogan para surtir efeito. Trata-se de um convite feito ao homem, à sociedade, à política e à economia, aos pobres e aos poderosos deste mundo; vamos sair das nossas fortalezas, abrir a porta dos nossos juízos e dos nossos preconceitos para irmos ao encontro Daquele que nos chama.

Vamos a Belém para começarmos um novo caminho ou continuarmos nos nossos palácios para conservarmos o nosso poder, para defendermos os nossos interesses sendo mesmo capazes de excluir o outro para mantermos as nossas posições? Saberemos nós dar, olhando para o Menino, uma reposta a esta sede de justiça e de dignidade, a este desejo de amor e fraternidade, à necessidade de se reencontrar, ou continuaremos a confiar nas nossas estratégias militares ou políticas que perdem fôlego?

Teremos nós a coragem de nos deixarmos levar por este Menino, pondo de lado todos os interesses partidários, para olharmos o outro como um irmão na plena liberdade de filhos de Deus, despojando-nos de toda a violência, opressão e arrogância?

A resposta não está escrita nas estrelas, mas nas nossas escolhas, livres e responsáveis. E enquanto nos viramos para Cristo Criança, e para a Porta aberta do Pai, que nada consegue fechar, a nossa confiança renova-se, a nossa esperança renasce e continuamos a cantar: Tu és a nossa esperança, não ficaremos decepcionados!


                                                                  +Pierbattista

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O tempo para nos prepararmos para as surpresas de Deus

O Advento, o tempo que conduz ao Natal, é o tempo para nos prepararmos para as surpresas de Deus.


Sabemos que Ele vem e queremos estar preparados para O receber com as nossas mãos estendidas e os nossos corações abertos. Há dois mil anos, surpreendeu-nos quando chegou a nós, um Bébé, com as suas fraldas, deitado numa manjedoura. No Natal perpetuamos a memória deste extraordinário presente oferecido à Humanidade. 

Mas não é só um tempo para nos lembrarmos, mas também para nos prepararmos porque que Ele virá e que provavelmente nos surpreenderá de novo. Precisamos das surpresas de Deus. Com estas surpresas, Deus abre-nos horizontes e dá-nos algo de novo que pode mudar o nosso mundo e a nossa vida.

O ano prestes a terminar foi um ano difícil, e mais do que nunca precisamos que os nossos horizontes sejam alargados e a nossa esperança renovada.

1 – A situação dos cristãos na Síria, no Iraque e no Egipto é uma total tragédia. Nestes países, que são o berço da nossa civilização, o ciclo vicioso da violência instalada parece desesperado e sem fim. Todos vimos as imagens, da passada semana, de Alepo assim como as de toda a região durante estes longos anos de conflito. A Síria e o Iraque estão destruídos. As guerras e o uso da força não foram capazes de trazer a paz e a justiça,  só trouxeram mais violência, mais mortos, mais destruição. Estas guerras terríveis são cegamente alimentadas pelo comércio de armas, pelos jogos de interesse das potências, pelo fundamentalismo implacável. A paz tem necessidade de negociações e de soluções políticas. O exército pode ganhar a guerra, mas para a construção da paz precisamos da política. E não a entrevemos. Muitos interesses estão em jogo nestas guerras, mas são os pobres e indefesos que pagaram o preço, e pagaram-no demasiado caro.

2 – Nas nossas dioceses, na Jordânia, acolhemos milhares de refugiados, de cristãos que escolheram permanecer fiéis à sua fé, mas também muçulmanos que temiam pelas suas vidas. A sua angústia, a sua sede de paz têm de se tornar nossas também.
3 – No Egipto, a comunidade cristã está constantemente ameaçada como  vimos, na semana passada, com o bombardeamento de uma igreja no Cairo: vinte e cinco pessoas foram mortas durante a missa de domingo. É altura de levantarmos os olhos para o Único capaz de nos salvar. Temos também a nossa parte de responsabilidade nestas tragédias devastadoras. As palavras já não são suficientes. Temos de lutar contra a pobreza e dar um permanente testemunho de misericórdia para revelar ao mundo o amor e a ternura do nosso Deus.

4 – A nossa situação na Terra Santa faz eco à do mundo inteiro face a um extremismo crescente e face ao fundamentalismo. O que nos surpreende é este radicalismo estar enraizado nas gerações mais novas. Deplorámos inúmeros actos de vandalismo contra cristãos, cemitérios ou igrejas ao longo de todo o ano. Nós não só queremos levantar a nossa voz para denunciar tais actos, como queremos ajudar a encontrar soluções, a abordar, na sua raiz, os problemas para assim podermos oferecer à juventude um mundo melhor. Na nossa visão, a educação é fundamental. É a base da construção de um futuro melhor para todos nós. No entanto as nossas escolas em Israel continuam atravessar uma crise sem precedentes e nenhuma solução concreta foi dada até agora.

5 – O nosso futuro parece incerto. Falta-nos perspectiva. Os obstáculos à paz em Israel e na Palestina persistem assim como a falta de diálogo ou de um compromisso para uma verdadeira paz baseada na justiça e na segurança são evidentes… Por falta de unidade e falta de visão de ambos os lados, o ódio e a violência parecem prevalecer à razão e ao diálogo. Os falsos pretextos e o egoísmo devem ser postos de lado, os políticos devem olhar com coragem para o seu povo que sofre e que aspira à paz. Em Cremissan (perto de Belém), o muro foi construído depois de uma longa luta e apesar dos nossos apelos às autoridades israelitas. A expropriação das terras das famílias cristãs é um roubo ao seu património.

6 – Em Israel, enquanto Igreja universal, acolhemos e damos assistência a milhares de trabalhadores estrangeiros, muitos dos quais cristãos. Tentamos dar de novo a esperança, mais uma vez com uma atenção muito particular para com os mais desprovidos, os mais desamparados, as crianças. Abrimos recentemente uma creche para filhos de migrantes em Jerusalém.

7 - Face a tantos problemas, devemos assumir as nossas responsabilidades, devemos continuar a trabalhar para uma mentalidade de paz. A nossa Igreja local, aqui na Terra Santa, reconhece também a necessidade de uma renovação espiritual e está num momento de reforma em termos de organização, de administração e de trabalho pastoral.

8 – E aqui podemos levantar os olhos e ver alguma luz no horizonte. O Papa Francisco guia-nos e prega a Boa Nova. No plano internacional, nesta confusão política que o mundo conhece, o Papa é a única voz clara e profética que podemos ouvir e na qual podemos ter confiança. Podemos reconhecer a sua voz como a do Bom Pastor. A sua mensagem é universal.

9 – O Ano da Misericórdia, que o Papa nos permitiu viver, recentrou a nossa missão de reforçar a confiança na misericórdia de Deus, Aquele que nunca se cansa de nos perdoar. Deus é Pai de todos, está sempre à espera de nós e vem até nós. Entre as Igrejas devemos continuar a caminhar para a unidade.

10 – O restauro do Túmulo de Jesus em Jerusalém e da Natividade em Belém, realizados graças à cooperação entre as diferentes confissões, mostraram como somente juntos podemos construir sobre o rochedo. Enquanto Igreja, continuaremos a trabalhar sem descanso com as pessoas de boa vontade – judeus, muçulmanos e ateus – para construirmos pontes, ajudar os mais pobres, educar as crianças, acolher os refugiados e os sem-abrigo.

Para concluir, gostaria de sublinhar como, apesar de tudo, continuamos a ter esperança. Esta esperança é a luz que continuamente nos guia entre as trevas na confusão desta região e do mundo inteiro. Os nossos corações feridos devem estar preparados para as surpresas de Deus. E o Natal é, na realidade, o momento de renovarmos a nossa fé no Deus das surpresas indo a Belém para venerarmos este Deus aparentemente sem poder: o Menino Jesus. Nas nossas orações temos e teremos sempre predente este mundo ferido.

                                                               + Pierbattista Pizzaballa

                                                              Administrador Apostólico

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Ao longo do caminho...

Votos Natal de Fr. Francesco Patton, OFM
o muito Reverendo Custódio da Terra Santa


No Salmo composto por São Francisco para celebrar o Natal, ele recorda: “Porque um santíssimo menino amado nos foi dado, e nasceu por nós no caminho e foi posto num presépio porque não tinha lugar na pousada”. S. FRANCISCO, Ofício da Paixão, Sal XV,7.

Cada dia em Belém contemplamos o lugar físico, “no caminho”, onde Jesus nasceu da Virgem Maria e veneramos diariamente a manjedoura onde foi colocado. A fisicidade deste lugar lembra-nos o facto de que o Filho de Deus escolheu de verdade compartilhar connosco a nossa história e a nossa vida. 

O mistério da encarnação não é um reality show onde pessoas comuns, diante de uma câmara, fazem de conta que estão a viver situações reais. Jesus, que é de estirpe real, acabou por nascer no caminho, pois de verdade ele não encontrou nem acolhimento, nem hospitalidade. Ele acabou por nascer ao longo do caminho como filho de refugiados – como diríamos hoje – mais do que como descendente de estirpe real.

Todavia, esse facto e essa escolha, que em Belém comemoramos todos os dias, mas revivemos no mundo inteiro de modo especialmente intenso no Natal, lembra-nos o quanto o Filho de Deus leva a sério a nossa condição humana. Jesus identifica- se na condição de quem se encontra “ao longo do caminho” não por escolha, mas por necessidade.

Ao longo do caminho, sendo obrigado a procurar emprego noutro lugar.
Ao longo do caminho, sendo levado a emigrar de uma situação que o descrimina e não lhe permite viver com dignidade na sua casa.
Ao longo do caminho porque um terramoto ou uma enchente o privaram da sua própria habitação.
Ao longo do caminho porque a guerra o erradicou do seu País, tornando-o refugiado.

Eis em quem se identificou e ainda se identifica o Filho de Deus que nasce em Belém, ao longo do caminho, porque para ele não há lugar ali onde normalmente nós vivemos e encontramos lugar.

Esse Menino, porém, recorda-nos São Francisco, trazendo à lembrança as palavras do Evangelho e da liturgia, “nos foi dado, e nasceu por nós”. Podemos até encontrar-mo-nos sem nada, ao longo de uma estrada, mas se recebermos esse dom, a nossa vida já estará repleta.

Jesus é o verdadeiro dom a ser aguardado.
Jesus é o único dom que pode encher o nosso coração.
Jesus é o dom que enche nossa vida.

E sem esse dom tudo que temos servirá para sobrevivermos, mas não para vivermos de modo pleno e autêntico. E é por nós. “Pro nobis” como diz o texto latino, deixando-nos intuir que a vida inteira desse Menino será uma vida “por nós”, uma vida pela qual nós receberemos o maior benefício: a salvação, a oportunidade de nos tornarmos com Ele filhos do mesmo Deus Pai, a possibilidade de participarmos da plenitude de vida e de alegria que é a vida divina.

Nasceu por nós no caminho, foi nos doado no caminho e torna-se para nós o caminho para a vida, a felicidade e a plenitude do amor.

Olhamos para a manjedoura na gruta de Belém e já enxergamos, na perspectiva, o Golgotá e a cruz, onde entenderemos realmente o que significa que esse Menino “nasceu por nós”.

Desejo a todos, em meu nome e dos franciscanos da Terra Santa, que sintam a comoção não apenas diante do Menino do presépio, mas diante de toda a criança em carne e osso que nos estende os braços e pede para ser acolhida. Naquela criança podemos ver o quanto o Filho de Deus se fez pequeno por nós. De verdade, não em sentido metafórico.

Desejo a todos, sobretudo àqueles que sentem que estão “ao longo do caminho”, em situação de fragilidade e vulnerabilidade, que se sintam sob o olhar materno e cuidadoso da Virgem Maria tendo ao seu lado a presença vigilante e atenta de São José.

Desejo a todos que saibam passar da comoção para a acção, para poderem reconhecer, hoje, o Filho de Deus que ainda pede para ser acolhido “ao longo do caminho” e ainda corre o risco de não encontrar lugar entre nós e ter que se refugiar noutro lugar.

Feliz Natal para cada uma e cada um e às vossaså famílias e comunidades.

Fr. Francesco Patton, ofm

Custódio da Terra Santa