ANO C - 27º
DOMINGO DO TEMPO COMUM
2 Outubro
2016
EVANGEHO – LUCAS 17,5-10
Evangelho de Nosso Senhor Jesus
Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo, os
Apóstolos disseram ao Senhor:
«Aumenta a nossa
fé».
O Senhor
respondeu:
«Se tivésseis fé
como um grão de mostarda, diríeis a esta amoreira:
‘Arranca-te daí e
vai plantar-te no mar’, e ela obedecer-vos-ia.
Quem de vós,
tendo um servo a lavrar ou a guardar gado,
lhe dirá quando
ele volta do campo: ‘Vem depressa sentar-te à mesa’?
Não lhe dirá
antes: ‘Prepara-me o jantar e cinge-te para me servires,
até que eu tenha
comido e bebido. Depois comerás e beberás tu.
Terá de agradecer
ao servo por lhe ter feito o que mandou?
Assim também vós,
quando tiverdes
feito tudo o que vos foi ordenado, dizei:
‘Somos inúteis
servos: fizemos o que devíamos fazer’».
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| A semente de Mostarda |
AMBIENTE
Continuamos a percorrer o “caminho de Jerusalém” e a deparar com as “lições” que preparam os
discípulos para o desafio de compreender e de dar testemunho do “Reino”. Desta
vez, o nosso texto junta um “dito” de Jesus sobre a fé e uma parábola que convida
à humildade.
Nas “etapas” anteriores, Jesus tinha avisado os discípulos
da dificuldade de percorrer o “caminho do Reino” (disse-lhes que entrar no
“Reino” é “entrar pela porta estreita” – Lc 13,24; convidou-os à humildade e à
gratuidade – cf. Lc 14,7-14; avisou-os de que é preciso amar mais o “Reino” do
que a própria família, os próprios interesses ou os próprios bens – cf. Lc
14,26-33; exigiu-lhes o perdão como atitude permanente – cf. Lc 17,5-6); agora,
são os discípulos que, preocupados com a exigência do “Reino”, pedem mais “fé”.
O “dito” sobre a fé que ocupa a primeira parte do
Evangelho que hoje nos é proposto aparece numa forma um pouco diferente em Mt
17,20 (um “dito” análogo lê-se também em Mc 11,23 e Mt 21,21, a propósito da
figueira seca). No estado actual do texto, é muito difícil definir o contexto
original do “dito” de Jesus, o seu enquadramento e o seu significado… Aqui, no
entanto, ele serve a Lucas para manifestar a preocupação dos discípulos com a
dificuldade em percorrer esse difícil “caminho do Reino”.
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| A árvore da Mostarda |
MENSAGEM
A primeira parte do nosso texto é, portanto, constituída
por um “dito” sobre a fé (vers. 5-6). Depois das exigências que Jesus
apresentou, quanto ao caminho que os discípulos devem percorrer para alcançar o
“Reino”, a resposta lógica destes só pode ser: “aumenta-nos a fé”. O que é que
a fé tem a ver com a exigência do “Reino”?
No Novo Testamento em geral e nos sinópticos em
particular, a fé não é, primordialmente, a adesão a dogmas ou a um conjunto de
verdades abstractas sobre Deus; mas é a adesão a Jesus, à sua proposta, ao seu
projecto – ou seja, ao projecto do “Reino”. No entanto, os discípulos têm
consciência de que essa adesão não é um caminho cómodo e fácil, pois supõe um
compromisso radical, a vitória sobre a própria fragilidade, a coragem de
abandonar o comodismo e o egoísmo para seguir um caminho de exigência… Pedir a
Jesus que lhes aumente a fé significa, portanto, pedir-Lhe que lhes aumente a
coragem de optar pelo “Reino” e pela exigência que o “Reino” comporta; significa
pedir que lhes dê a decisão para aderirem incondicionalmente à proposta de vida
que Jesus lhes veio apresentar.
Jesus aproveita, na sequência, para recordar aos
discípulos o resultado da “fé”. A imagem utilizada por Jesus (a ordem dada à
“amoreira” para se arrancar da terra e ir plantar-se a ela própria no mar)
mostra que, com a “fé” tudo é possível: quando se adere a Jesus e ao “Reino”
com coragem e determinação, isso implica uma transformação completa da pessoa
do discípulo e, em consequência, uma transformação do mundo que o rodeia.
Aderir ao “Reino” com radicalidade é ter na mão a chave para mudar a história,
mesmo que essa transformação pareça impossível… O discípulo que adere ao
“Reino” com coragem e determinação é capaz de autênticos “milagres”… E isto não
é conversa fiada: quantas vezes a tenacidade e a coragem dos discípulos de
Jesus transformam a morte em vida, o desespero em esperança, a escravidão em
liberdade!
Na segunda parte do nosso texto (vers. 7-10), Lucas
descreve a atitude que o homem deve assumir diante de Deus. Os fariseus estavam
convencidos de que bastava cumprir os mandamentos da Torah para alcançar a
salvação: se o homem cumprisse as regras, Deus não teria outro remédio senão
salvá-lo… A salvação dependia, de acordo com esta perspectiva, dos méritos do
homem. Deus seria, assim, apenas um contabilista, empenhado em fazer contas
para ver se o homem tinha ou não direito à salvação…
Jesus coloca as coisas numa dimensão diferente. A atitude
do discípulo – desse discípulo que adere a Jesus e ao “Reino”, que faz as
“obras do Reino” e que constrói o “Reino” – frente a Deus não deve ser a
atitude de quem sente que fez tudo muito bem feito e que, por isso, Deus lhe
deve algo; mas deve ser a atitude de quem cumpre o seu papel com humildade,
sentindo-se um servo que apenas fez o que lhe competia.
O que Jesus nos pede no Evangelho de hoje é que
percorramos, com coragem e empenho, o “caminho do Reino”. Quando o discípulo
aceita percorrer esse caminho, é capaz de operar coisas espantosas, milagres
que transformam o mundo… E, cumprida a sua missão, resta ao discípulo sentir-se
servo humilde de Deus, agradecer-Lhe pelos seus dons, entregar-se confiada e
humildemente nas suas mãos.





