domingo, 25 de setembro de 2016

O que não vamos ver... - 2

Monte Carmelo

Jesus percorreu muitas cidades e aldeias da Palestina durante os três anos da sua vida pública, anunciando o Reino de Deus. O seu ministério itinerante desenvolveu-se sobretudo nas margens do mar de Genesaré, em Jerusalém e nas viagens entre esses dois locais: de norte para sul e de sul para norte, seguindo o rio Jordão ou através da Samaria.

J. Gil


Os evangelistas contam-nos também que certa vez se retirou para lá dos confins da Galileia, para a região de Tiro e Sidón que foram a antiga Fenícia e hoje são o Líbano (Vd. Mt 15, 21 e Mc7, 24), contudo não existem registos de que tenha chegado até à costa do Mediterrâneo onde a população era maioritariamente gentia. É nesse local que se situa o monte Carmelo, especialmente ligado a Elias e a Eliseu, dois grandes profetas do Antigo Testamento e, na época cristã, ao nascimento da Ordem do Carmelitas.
Gráfico: J. Gil

O Carmelo é uma cadeia de montanhas, de rocha calcária, que se separa do sistema montanhoso da Samaria, prolongando-se até ao Mediterrâneo e terminando num promontório sobre a cidade de Haifa. Tem o comprimento de 25 km e uma largura que varia entre os dez e os quinze, e uma altitude média de 500 m. O nome deriva da palavra kerem que significa horto, vinha ou jardim com a característica de serem muito belos. Esta qualificação ajusta-se à realidade: nesta cadeia brotam muitas fontes pelo que nos cabeços e barrancos cresce uma flora rica e variada, tipicamente mediterrânica: loureiros, murta, carvalhos, tamarindos, cedros, pinheiros, alfarrobeiras, lentiscos...
Esta fertilidade foi sempre proverbial e nos vários livros do Antigo Testamento aparece como o símbolo da prosperidade de Israel ou também da sua desgraça, em caso de aflição: “O Senhor brama de Sião, e de Jerusalém faz ouvir a sua voz; os prados dos pastores lamentam, seca-se o cume do Carmelo” (Am 1, 2. Cfr. Is 33, 9 y 35, 2; Jr 50, 19; y Na 1, 4).

Existem também numerosas cavernas – mais de mil – particularmente a oeste, com abertura estreita mas, muito amplas.”

A história do Carmelo está intimamente ligada ao profeta Elias que viveu no séc. IX a.C. Segundo a tradição recolhida pelos Santos Padres e por outros escritores da antiguidade, mantinha-se viva em vários locais a memória da sua presença: uma gruta na encosta norte, no cabo de Haifa, onde viveu primeiro ele e depois Eliseu; perto dali, o local onde se reuniam com os seus discípulos, apelidado pelos cristãos como Escola de Profetas e em árabe EL Hader, na mesma zona, a oeste uma nascente conhecida como a fonte de Elias que ele mesmo teria feito brotar da rocha e a sudeste do maciço, o cume de EL-Muhraqa e a torrente do Qison onde fez frente aos quatrocentos e cinquenta profetas de Baal: por intermédio da sua oração, Deus fez descer fogo do céu e deste modo o povo abandonou a idolatria, segundo relata o primeiro livro dos Reis (Cfr. 1 Re 18, 19-40).

Nestes locais venerados desde o alvor do cristianismo, onde se construíram igrejas e mosteiros em memória de Elias, nasceu a Ordem do Carmo. A sua origem remonta à segunda metade do séc. XII, quando S. Bertoldo de Malafaida, cruzado francês, reuniu à sua volta alguns ermitãos que viviam dispersos no Hader, na zona do monte Carmelo, próxima de Haifa. Edificaram ali um santuário e mais tarde, por volta de 1200, outro na encosta ocidental, em Wadi es-Siah. S. Brocardo, sucessor de Bertoldo como prior, solicitou então ao patriarca de Jerusalém, uma aprovação oficial e uma norma que organizasse a sua vocação de solidão, ascese e oração contemplativa: é a Regra do Carmo – também chamada Regra do Nosso Salvador – ainda em vigor nos nossos dias.

Por diversas razões, o reconhecimento do Papa atrasou-se até 1226. A partir de então e por causa da incerteza que os cristãos sofriam no oriente, alguns carmelitas regressaram aos seus países, na Europa, onde constituíram novos mosteiros. Este êxodo foi providencial para a sobrevivência e expansão da Ordem do Carmo pois, em 1291 os exércitos do Egito conquistaram Acre e Haifa, queimaram os santuários do Monte Carmelo e assassinaram os monges.

Contar a história da Ordem do Carmo seria demasiado extenso. No que diz respeito à Terra Santa, basta referir que, excepto um interregno no séc. XVII, a Ordem não pôde restabelecer- se no Monte Carmelo a não ser a partir do princípio do séc. XIX. Entre 1827 e 1836, construi-se na ponta norte, sobre uma gruta que lembrava a presença de Elias, o atual mosteiro e santuário Stella Maris: assim como a nuvenzita que o criado de Elias enxergou e trouxe a chuva que fecundaria a terra de Israel, depois do episódio dos falsos profetas (Cfr. 1 Re 18, 44), assim também de Nossa Senhora nasceu Cristo, por quem a graça de Deus se derramou por toda a terra. Os edifícios de três andares, formam um complexo retangular de sessenta metros de comprimento por seis de largura.

Para norte a vista da baía de Haifa é magnífica e em dias límpidos pode avistar-se Acre seguindo a linha do litoral. Entra-se na igreja pela fachada oeste: o espaço ao centro é octogonal e está coberto por uma cúpula decorada com cenas de Elias e de outros profetas, a Sagrada Família, os Evangelistas e alguns santos carmelitas. As pinturas foram feitas em 1928.

Também é dessa época o revestimento do templo em mármore, terminado em 1931. O ponto central é o presbitério: por detrás do altar, num nicho, encontramos uma imagem de Nossa Senhora do Carmo e, por debaixo, a cova onde, segundo a tradição, habitou Elias. É um espaço de aproximadamente três por cinco metros, separado da nave por duas colunas de pórfiro (rocha vulcânica antiga) e uns degraus, ao fundo está um altar e uma imagem do profeta.

Sob o altar, uma cova recorda a presença do profeta Elias no Carmelo. Foto: Israel Tourism – Flickr.


Além de Stella Maris, a Ordem do Carmo tem outro santuário na ponta sul do monte Carmelo, o El-Muhraqa, conhecido como Sacrifício de Elias: lembra o episódio dos profetas de Baal já referido. No entanto, do antigo mosteiro fundado em Wadi es-Siah, atualmente Nahal Siakh, apenas subsistem ruinas.

O costume do Escapulário
Ao longo dos séculos, a Ordem do Carmo dotou a cristandade inúmeros tesouros espirituais: basta pensar nas vidas exemplares e nos ensinamentos de Santa Teresa de Ávila, S. João da Cruz ou de S. Teresa de Lisieux, os três Doutores da Igreja. Entre essas riquezas, destaca-se o costume do escapulário que S. Josemaria viveu e difundiu “Traz sobre o peito o santo escapulário do Carmo. - Poucas devoções (há muitas, e muito boas devoções marianas) estão tão arraigadas entre os fiéis e têm tantas bênçãos dos Pontífices. - Além disso, é tão maternal este privilégio sabatino!” (Caminho, n. 500).

O escapulário assegura a quem o usa com piedade duas prerrogativas: ajuda para perseverar no bem até ao momento da morte e a libertação das penas do purgatório. Esta devoção começou em 1251, durante um momento de especial perseguição da Ordem que dava os seus primeiros passos na Europa. Segundo uma redação antiga do Catálogo dos santos carmelitas, na qual se funda este relato, um certo S. Simão – identificado mais tarde como S. Simão Stock, prior geral inglês – recorria insistentemente a Nossa Senhora com a seguinte súplica:
Flos Carmeli / Flor do Carmelo
vitis florígera/vide florida
splendor coeli / esplendor do céu
Virgo puerpera / Virgem fecunda
singularis / e singular
Mater mitis / oh doce Mãe
sed viri nescia / que não conheceu varão
Carmelitis / aos Carmelitas
da privilegia / concede privilégios
Stella Maris / Estrela do mar.

Em resposta à sua oração, a Virgem apareceu-lhe trazendo na mão o escapulário e disse-lhe: este é um privilégio para ti e todos os teus: quem morrer usando-o, salvar-se-á. Uma redação mais longa afirma: aquele que morrer usando-o, não irá para o inferno, salvar-se-á. O escapulário formava então parte do hábito religioso ainda que a sua origem tenha sido um fato de trabalho que os servos e os artesãos usavam. Consistia numa tira de pano com uma abertura para meter a cabeça que se sobrepunha sobre a túnica, e caía sobre o peito e as costas.

Privilégio sabatino
A segunda prerrogativa, conhecida como privilégio sabatino, procede de uma tradição medieval: A Sé Apostólica estabeleceu em 1613, através de um decreto, que o povo cristão pode acreditar piedosamente na ajuda da Santíssima Virgem às almas dos frades e confrades da Ordem do Carmo que falecerem na graça de Deus, usando o escapulário, vivendo a castidade de acordo com o seu estado e rezando o Ofício Breve ou – se não sabem ler – guardarem os jejuns e abstinências determinados pela Igreja, e que Nossa Senhora atuará com a sua proteção especialmente no sábado, dia especialmente dedicado pela Igreja à Mãe de Deus.

Isto é, o privilégio sabatino funda-se numa verdade usual da doutrina cristã comum: a solicitude maternal de Santa Maria para fazer com que os filhos que expiam as culpas no purgatório alcancem, o mais depressa possível, por sua intercessão, a glória do Céu.

Ao mesmo tempo que a Ordem do Carmo se ia desenvolvendo – especialmente nos séc. XVI e XVII, graças a várias reformas – também se multiplicaram as confrarias. Atraiam muitos fiéis que, sem abraçarem a vida religiosa, participavam da devoção a Nossa Senhora difundida pela espiritualidade carmelita. Manifestavam-no vestindo o escapulário que se foi simplificando na sua forma até se converter em dois quadrados de tecido unidos por fitas para usá-lo ao pescoço.

A Sé Apostólica interveio, em numerosas ocasiões, para fomentar este costume, unindo-lhe a faculdade de ganhar indulgências e fixando algumas questões práticas: a cerimónia de imposição, que basta receber-se uma vez apenas, pode realizá-la qualquer sacerdote; a bênção de um novo escapulário para substituir outro já gasto ou a possibilidade de substituir o tecido por uma medalha com as imagens do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora.

Há alguns anos, na celebração do 750o aniversário da entrega do escapulário – a aparição a S. Simão Stock - o Beato João Paulo II, que o usava desde novo, resumiu assim o seu valor “Duas são, portanto, as verdades evocadas no símbolo do Escapulário: de um lado a proteção contínua da Santíssima Virgem, não só ao longo do caminho da vida, mas também no momento da passagem para a plenitude da glória eterna; de outro lado, consciência de que a devoção a Ela não pode limitar-se a orações e obséquios em sua honra em algumas circunstâncias, mas que deve constituir um “hábito”. Isto quer dizer: uma textura permanente da própria conduta cristã, tecida de oração e de vida interior, mediante a prática frequente dos Sacramentos e o exercício concreto das obras de misericórdia espirituais e corporais. Deste modo, o escapulário converte-se em símbolo de “aliança” e de comunhão recíproca entre Maria e os fiéis: de facto, traduz de modo concreto a entrega que Jesus, do alto da cruz, fez a João, e nele a todos nós, de sua Mãe; e a entrega do apóstolo predileto e de nós a Ela, constituída como Mãe espiritual”. (Beato João Paulo II, Mensagem à Ordem do Carmo por ocasião da dedicação do ano de 2001 a Maria, 25-III-2001).

Estas ideias estão contidas nas palavras que o celebrante pronuncia na bênção do escapulário: "[Deus], olhai com benevolência para estes vossos servos que receberam com devoção o Escapulário do Carmo e vão usar diligentemente como sinal de consagração a Nossa Senhora do Carmo. Fazei que sejam imagem de Cristo, vosso Filho, e, terminada a sua passagem por esta vida, com a ajuda da Virgem Mãe de Deus, sejam admitidos na alegria da vossa morada celeste." (De benedictionibus, n. 1218)

Ao falar da intimidade com Deus, S. Josemaria animava-nos com frequência a sermos crianças, a reconhecer que necessitamos sempre da ajuda da graça. E também nos ensinou a percorrer este caminho pelas mãos de Nossa Senhora:
“Porque Maria é Mãe, a sua devoção ensina-nos a ser filhos - a amar deveras, sem medida; a ser simples, sem as complicações que nascem do egoísmo de pensar só em nós; a estar alegres, sabendo que nada pode destruir a nossa esperança. O princípio do caminho que leva à loucura do amor de Deus é um confiado amor a Maria Santíssima. Assim o escrevi já há muitos anos, no prólogo a uns comentários ao Santo Rosário, e desde então muitas vezes voltei a comprovar a verdade destas palavras. Não vou fazer aqui muitas considerações para glosar esta ideia; convido-vos, sim, a fazerdes vós a experiência, a descobrirdes isso por vós mesmos, conversando amorosamente com Maria, abrindo-lhe o vosso coração, confiando- lhe as vossas alegrias e as vossas penas, pedindo-lhe que vos ajude a conhecer e a seguir Jesus. Porque Maria é Mãe, a sua devoção ensina-nos a ser filhos - a amar deveras, sem medida; a ser simples, sem as complicações que nascem do egoísmo de pensar só em nós; a estar alegres, sabendo que nada pode destruir a nossa esperança. O princípio do caminho que leva à loucura do amor de Deus é um confiado amor a Maria Santíssima. Assim o escrevi já há muitos anos, no prólogo a uns comentários ao Santo Rosário, e desde então muitas vezes voltei a comprovar a verdade destas palavras. Não vou fazer aqui muitas considerações para glosar esta ideia; convido-vos, sim, a fazerdes vós a experiência, a descobrirdes isso por vós mesmos, conversando amorosamente com Maria, abrindo-lhe o vosso coração, confiando- lhe as vossas alegrias e as vossas penas, pedindo-lhe que vos ajude a conhecer e a seguir Jesus. (Cristo que Passa, n. 143)

J. Gil


(In, www.josemariaescriva.info)

A caminho ao ritmo da Liturgia

ANO C - 26º DOMINGO DO TEMPO COMUM
5 Setembro 2016



EVANGELHO – Lc 16,19-31


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo, disse Jesus aos fariseus:
«Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e linho fino
e se banqueteava esplendidamente todos os dias.
Um pobre, chamado Lázaro,jazia junto do seu portão, coberto de chagas.
Bem desejava saciar-se do que caía da mesa do rico,
mas até os cães vinham lamber-lhe as chagas.
Ora sucedeu que o pobre morreu e foi colocado pelos Anjos ao lado de Abraão.
Morreu também o rico e foi sepultado.
Na mansão dos mortos, estando em tormentos,
levantou os olhos e viu Abraão com Lázaro a seu lado.
Então ergueu a voz e disse:
‘Pai Abraão, tem compaixão de mim.
Envia Lázaro, para que molhe em água a ponta do dedo
e me refresque a língua, porque estou atormentado nestas chamas’.
Abraão respondeu-lhe:
‘Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida
e Lázaro apenas os males.
Por isso, agora ele encontra-se aqui consolado,
enquanto tu és atormentado.
Além disso, há entre nós e vós um grande abismo,
de modo que se alguém quisesse passar daqui para junto de vós,
ou daí para junto de nós, não poderia fazê-lo’.
O rico insistiu:
‘Então peço-te, ó pai, que mandes Lázaro à minha casa paterna
– pois tenho cinco irmãos – para que os previna,
a fim de que não venham também para este lugar de tormento’.
Disse-lhe Abraão:
‘Eles têm Moisés e os Profetas.
Que os oiçam’.
Mas ele insistiu:
‘Não, pai Abraão. Se algum dos mortos for ter com eles, arrepender-se-ão’.
Abraão respondeu-lhe:
‘Se não dão ouvidos a Moisés nem aos Profetas,
mesmo que alguém ressuscite dos mortos, não se convencerão’.


AMBIENTE
A leitura que hoje nos é proposta apresenta mais uma etapa do “caminho de Jerusalém”. A história do rico e do pobre Lázaro é um texto exclusivo de Lucas. Não é possível dizer se se trata de uma parábola procedente de uma fonte desconhecida, ou se é uma criação do próprio Lucas… De qualquer forma, trata-se de uma catequese (desenvolvida ao longo de todo o capítulo 16 do Evangelho segundo Lucas) em que se aborda o problema da relação entre o homem e os bens deste mundo. Jesus dirige-Se, aqui, aos fariseus (cf. Lc 16,14), como representantes de todos aqueles que amam o dinheiro e vivem em função dele.

MENSAGEM
A parábola tem duas partes.
Na primeira (vers. 19-26), Lucas apresenta os dois personagens fundamentais da história, segundo um cliché literário muito comum na literatura bíblica: um rico que vive luxuosamente e que celebra grandes festas e um pobre, que tem fome, vive miseravelmente e está doente. No entanto, a morte dos dois muda radicalmente a situação. O que é que, verdadeiramente, está aqui em causa?

Atentemos nos dois personagens… Do rico diz-se, apenas, que se vestia de púrpura e linho fino, e que dava esplêndidas festas. De resto, não se diz se ele era mau ou bom, se frequentava ou não o templo, se explorava os pobres ou se era insensível ao seu sofrimento (aparentemente, isso não é decisivo para o desfecho); no entanto, quando morreu, foi para um lugar de tormentos. Do pobre Lázaro diz-se, apenas, que jazia ao portão do rico, que estava coberto de chagas, que desejava saciar-se das migalhas que caíam da mesa do rico e que os cães vinham lamber-lhe as chagas; quando morreu, Lázaro foi “levado pelos anjos ao seio de Abraão” (quer dizer, a um lugar de honra no festim presidido por Abraão. Trata-se do “banquete do Reino”, onde os eleitos se juntarão – de acordo com o imaginário judaico – com os patriarcas e os profetas); não se diz, no entanto, se Lázaro levou na terra uma vida exemplar ou se cometeu más acções, se foi um modelo de virtudes ou foi um homem carregado de defeitos, se trabalhava duramente ou se foi um parasita que não quis fazer nada para mudar a sua triste situação…

Nesta história, não parecem ser as acções boas ou más cometidas neste mundo pelos personagens (a história não faz qualquer referência a isso) que decidem a sorte deles no outro mundo. Então, porque é que um está destinado aos tormentos e outro ao “banquete do Reino”?

A resposta só pode ser uma: o que determina a diferença de destinos é a riqueza e a pobreza. O rico conhece os “tormentos” porque é rico; o pobre conhece o “banquete do Reino” porque é pobre. Mas então, a riqueza será pecado? Aqueles que acumularam riquezas sem defraudar ninguém serão culpados de alguma coisa? Ser rico equivale a ser mau e, portanto, a estar destinado aos “tormentos”?
Na perspectiva de Lucas, a riqueza – legítima ou ilegítima – é sempre culpada. Os bens não pertencem a ninguém em particular (nem sequer àqueles que trabalharam duramente para se apossar de uma fatia gorda dos bens que Deus colocou no mundo); mas são dons de Deus, postos à disposição de todos os seus filhos, para serem partilhados e para assegurarem uma vida digna a todos… Quem se apossa – ainda que legitimamente – desses bens em benefício próprio, sem os partilhar, está a defraudar o projecto de Deus. Quem usa os bens para ter uma vida luxuosa e sem cuidados, esquecendo-se das necessidades dos outros homens, está a defraudar os seus irmãos que vivem na miséria. Nesta história, Jesus ensina que não somos donos dos bens que Deus colocou nas nossas mãos, ainda que os tenhamos adquirido de forma legítima: somos apenas administradores, encarregados de partilhar com os irmãos aquilo que pertence a todos. Esquecer isto é viver de forma egoísta e, por isso, estar destinado aos “tormentos”.

Na segunda parte do nosso texto (vers. 27-31), insiste-se em que a Escritura – na qual os fariseus eram peritos – apresenta o caminho seguro para aprender e assumir a atitude correcta em relação aos bens. O rico ficou surdo às interpelações da Palavra de Deus (“Moisés e os Profetas”) e isso é que decidiu a sua sorte: ele não quis escutar as interpelações da Palavra e não se deixou transformar por ela. O versículo final (vers. 31) expressa perfeitamente a mensagem contida nesta segunda parte: até mesmo os milagres mais espectaculares são inúteis, quando o homem não acolheu no seu coração a Palavra de Deus. Só a Palavra de Deus pode fazer com que o homem corrija as opções erradas, saia do seu egoísmo, aprenda a amar e a partilhar.

A história que nos é proposta é uma ilustração das bem-aventuranças e dos “ais” de Lc 6,20-26… Anuncia-se, desta forma, que o projecto de Deus passa por um “Reino” de fraternidade, de amor e de partilha. Quem recusa esse projecto e escolhe viver fechado no seu egoísmo e auto-suficiência (os ricos), não pode fazer parte desse mundo novo de fraternidade que Deus quer propor aos homens (a imagem dos “tormentos”, contudo, não deve se levada demasiado a sério: faz parte do folclore oriental e das imagens que os pregadores da época utilizavam para impressionar as pessoas e levá-las a modificar radicalmente o seu comportamento).


(In, www.dehonianos.pt)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O que não vamos ver... - 1

O Monte Sinai

Um pico de 2.280 metros no sul da Península do Sinai no Egipto, é venerado como a montanha onde Moisés falou com Deus e recebeu os Dez Mandamentos. É um dos vários picos picos de uma cordilheira-granito vermelho que sobe abruptamente da planície, com declives espetaculares e vales profundos, não sendo porém a montanha mais alta na região. Mas pode ter sido chamado Sinai "montanha de Deus", mesmo antes da época de Moisés, e atraiu peregrinos desde o século 4 dC. Em árabe é chamado Jebel Musa "montanha de Moisés".



Perto do sopé da montanha fica situado o Mosteiro de Santa Catarina, construído sobre o local onde a tradição situa o episódio da sarça ardente onde Deus chamou Moisés para liderar seu povo para fora do Egito.

Nas imediações encontram-se vários outros lugares evocados no livro de Êxodo, incluindo o local onde Moisés bateu na rocha para fazer sair água, e a planície de Al-Raha, onde os israelitas acamparam e Aaron fez o bezerro de ouro.

Pelo menos uma dúzia de locais diferentes foram referenciados para o Monte Sinai - incluindo montanhas no norte e oeste da Península do Sinai, no sul da Palestina, na Jordânia e na Arábia Saudita.

A maioria dos autores modernos aceitam a identificação do Monte Sinai com Jebel Musa, em linha com a tradição que o data para o século 4 dC. Esta identificação foi registada pela peregrina Egéria, que o visitou entre o ano 381 e 384. Nessa altura, já existia um mosteiro cristão no sopé da montanha.

Até o final do século IV, eremitas e pequenos grupos de monges do Egipto e Palestina se tinham estabelecido aqui. Já havia uma dispersão de pequenas igrejas e peregrinações aparentemente já organizadas para os lugares ligados a Moisés.

O Antigo Testamento dá ao "monte de Deus" os nomes de Sinai e Horeb, mas estas referências aparentemente aplicam-se à mesma montanha.


Ver o nascer do sol do Monte Sinai é uma actividade muito comum para os peregrinos, que enchem o cume. Começam pelas 02:00 através de um dos dois caminhos para o cimo. O caminho mais directo é o mais íngreme, fazendo os 3750 "Passos de Arrependimento", que se diz ter sido traçado num desfiladeiro rochoso e íngreme por um monge como acto de penitência. A, trilha menos íngreme já pode pode-se subir tanto a pé como de camelo, alugados a beduínos, que fazem a maior parte do caminho, sendo os ultimos 750 "passos" a pé.

Em plena subida, num pequeno planalto, há uma caverna onde se venera o episódio do Livro dos Reis em que Elias encontrou o Senhor no «murmúrio de uma brisa suave» (1 Reis 19: 8-13).

No cimo encontra-se a Capela da Santíssima Trindade, construída em 1934 sobre as ruínas de uma igreja bizantina, do século IV. Diz-se ter sido construída sobre a rocha da qual Deus tomou as tábuas de pedra. O seu interior está decorado com frescos da vida de Moisés. Perto, uma mesquita do século XII.




A espectacular vista alarga-se num panorama de picos de montanha e tem sido comparada a "um oceano de ondas petrificadas".