Ao romper do dia, Jesus apresentou-se na margem, mas os discípulos não sabiam que era Ele. Jesus disse-lhes, então: «Rapazes, tendes alguma coisa para comer?» Eles responderam-lhe: «Não.» Disse-lhes Ele: «Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar.» Lançaram-na e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar. Então, o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: «É o Senhor!» Jo 21, 7
Prosseguindo a série de retratos dos
doze Apóstolos, que começámos há algumas semanas, hoje detemo-nos em Mateus. Na
verdade, apresentar completamente a sua figura é quase impossível, porque as
notícias que lhe dizem respeito são poucas e fragmentadas. Mas o que podemos
fazer, não é tanto um esboço da sua biografia, mas ao contrário o perfil que o
Evangelho transmite.
Entretanto, ele está sempre presente
nos elencos dos Doze escolhidos por Jesus (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 15;
Act 1, 13). O seu nome hebraico significa "dom de Deus". O primeiro
Evangelho canónico, que tem o seu nome, apresenta-no-lo no elenco dos Doze com
uma qualificação bem clara: "o publicano" (Mt 10, 3). Desta forma ele
é identificado com o homem sentado no banco dos impostos, que Jesus chama ao
seu seguimento:"Partindo dali,
Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e
disse-lhe:"Segue-me!". Ele
levantou-se e seguiu-o" (Mt 9, 9). Também Marcos (cf. 2, 13-17) e Lucas
(cf. 5, 27-30) narram a chamada do homem sentado no posto de cobrança, mas
chamam-no "Levi". Para imaginar o cenário descrito em Mt 9, 9 é
suficiente recordar a magnífica tela de Caravaggio, conservada aqui em Roma na
Igreja de São Luís dos Franceses. Dos Evangelhos sobressai um ulterior pormenor
biográfico:no trecho que precede
imediatamente a narração da chamada é referido um milagre realizado por Jesus
em Cafarnaum (cf. Mt 9, 1-8; Mc 2, 1-12) e é mencionada a proximidade do Mar da
Galileia, isto é do Lago de Tiberíades (cf. Mc 2, 13-14). Disto pode deduzir-se
que Mateus desempenhasse a função de cobrador em Cafarnaúm, situada
precisamente "à beira-mar" (Mt 4, 13), onde Jesus era hóspede fixo na
casa de Pedro.
Com base nestas simples constatações
que resultam do Evangelho podemos fazer algumas reflexões. A primeira é que
Jesus acolhe no grupo dos seus íntimos um homem que, segundo as concepções em
vigor na Israel daquele tempo, era considerado um público pecador. De facto,
Mateus não só administrava dinheiro considerado impuro devido à sua proveniência
de pessoas estranhas ao povo de Deus, mas colaborava também com uma autoridade
estrangeira odiosamente ávida, cujos tributos podiam ser determinados também de
modo arbitrário. Por estes motivos, mais de uma vez os Evangelhos falam
unitariamente de "publicanos e pecadores" (Mt 9, 10; Lc 15, 1), de
"publicanos e prostitutas" (Mt 21, 31). Além disso eles vêem nos
publicanos um exemplo de mesquinhez (cf. Mt 5, 46:amam os que os amam) e mencionam um deles,
Zaqueu, como "chefe dos publicanos e rico" (Lc 19, 2), enquanto a
opinião popular os associava a "ladrões, injustos, adúlteros" (Lc 18,
11). É ressaltado um primeiro dado com base nestes elementos: Jesus não exclui
ninguém da própria amizade. Ao contrário, precisamente porque se encontra à mesa
em casa de Mateus-Levi, em resposta a quem falava de escândalo pelo facto de
ele frequentar companhias pouco recomendáveis, pronuncia a importante
declaração:"Não são os que têm
saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos,
mas os pecadores" (Mc 2, 17).
O bom anúncio do Evangelho consiste
precisamente nisto: na oferenda da graça de Deus ao pecador! Noutro texto, com
a célebre parábola do fariseu e do publicano que foram ao Templo para rezar,
Jesus indica inclusivamente um anónimo publicano como exemplo apreciável de
confiança humilde na misericórdia divina:enquanto o fariseu se vangloria da própria perfeição moral, "o
cobrador de impostos... nem sequer ousava levantar os olhos para o céu, mas
batia no peito, dizendo: "Ó Deus, tem piedade de mim, que sou
pecador"". E Jesus comenta: "Digo-vos: Este voltou justificado
para sua casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado,
e quem se humilha será exaltado" (Lc 18, 13-14). Na figura de Mateus,
portanto, os Evangelhos propõem-nos um verdadeiro e próprio paradoxo:quem aparentemente está afastado da santidade
pode até tornar-se um modelo de acolhimento da misericórdia de Deus e deixar
entrever os seus maravilhosos efeitos na própria existência. Em relação a isto,
São João Crisóstomo faz uma significativa anotação:ele observa que só na narração de algumas
chamadas se menciona o trabalho que as pessoas em questão desempenhavam. Pedro,
André, Tiago e João são chamados quando estão a pescar, Mateus precisamente quando
cobra os impostos. Trata-se de trabalhos de pouca importância — comenta
Crisóstomo — "porque não há nada mais detestável do que um cobrador de
impostos e nada de mais comum do que a pesca" (In Matth. Hom.: PL 57,
363). A chamada de Jesus chega portanto também a pessoas de baixo nível social,
enquanto desempenham o trabalho quotidiano.
Outra reflexão, que provém da narração
evangélica, é que à chamada de Jesus, Mateus responde imediatamente: "ele
levantou-se e seguiu-o". A condensação da frase ressalta claramente a
prontidão de Mateus ao responder à chamada. Isto significava para ele o
abandono de todas as coisas, sobretudo do que lhe garantia uma fonte de lucro
seguro, mesmo se muitas vezes injusto e desonesto. Evidentemente Mateus
compreendeu que a familiaridade com Jesus não lhe permitia perseverar em
actividades desaprovadas por Deus. Intuiu-se facilmente a aplicação ao
presente:também hoje não é admissível o
apego a coisas incompatíveis com o seguimento de Jesus, como é o caso das
riquezas desonestas. Certa vez Ele disse sem meios-termos:"Se queres ser perfeito, vai, vende o
que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e
segue-me" (Mt 19, 21). Foi precisamente isto que Mateus fez: levantou-se e
seguiu-o! Neste "levantar-se" é legítimo ver o abandono de uma
situação de pecado e ao mesmo tempo a adesão consciente a uma existência nova,
recta, na comunhão com Jesus.
Por fim, recordamos que a tradição da
Igreja antiga concorda na atribuição a Mateus da paternidade do primeiro
Evangelho. Isto acontece já a partir de Papias, Bispo de Hierápoles na Frígia
por volta do ano 130. Ele escreve: "Mateus reuniu as palavras (do Senhor)
em língua hebraica, e cada um as interpretou como podia" (em Eusébio de
Cesareia, Hist. eccl. III, 39, 16).
O historiador Eusébio acrescenta esta
notícia:"Mateus, que primeiro
tinha pregado aos hebreus, quando decidiu ir também a outros povos escreveu na
sua língua materna o Evangelho por ele anunciado; assim, procurou substituir
com a escrita, junto daqueles dos quais se separava, aquilo que eles perdiam
com a sua partida" (ibid., III, 24, 6). Já não temos o Evangelho escrito
por Mateus em hebraico ou em aramaico, mas no Evangelho grego que ainda
continuamos a ouvir, de certa forma, a voz persuasiva do publicano Mateus que,
tendo-se tornado Apóstolo, continua a anunciar-nos a misericórdia salvadora de
Deus e ouvimos esta mensagem de São Mateus, meditámo-la sempre de novo para
aprender também nós a levantar-nos e a seguir Jesus com determinação.
PAPA BENTO XVI
AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 30 de Agosto de 2006
É difícil, em pouco tempo e
neste contexto, entrar num tema tão vasto e complexo como o do Médio Oriente,
hoje a ferro e fogo e em transformação radical e dramática.
Ainda mais difícil é
relacionar esta situação trágica com “o poder do coração”, tema do nosso encontro.Que poderá fazer o coração perante o drama
humanitário que os media nos mostram há meses?Será com certeza preciso bem mais do que uma palavra amiga ou bons
sentimentos.
Penso que esteja errado
limitar-se a uma análise (admitindo que se consiga faze-la) política, social e
histórica do que está a acontecer, sem ter também uma visão religiosa , isenta,
que ajude a ler e a interpretar os
acontecimentos sem se deixar envolver neles. Estes dois âmbitosnecessitam um do outro. Precisamos de
especialistas que nos ajudem a compreender as mudanças radicais a que estamos a
assistir do ponto de vista político, económico e social. Mas também precisamos
de um olhar do alto, alargado, livre de medos e complexos.
Nestes últimos meses, em
Jerusalém, fomos invadidos por pedidos e propostas vindos das mais
imprevisíveis associações e movimentos internacionais de caracter absolutamente
laico, que, preocupados com o que está a acontecer, se querem empenhar nas mais
várias iniciativas de âmbito cultural, político e até mesmo militar para
“salvar o cristianismo e a sua cultura no Médio Oriente,” e não só. São
preocupações legítimas, como infelizmente constatamos, mas às quais falta o
olhar de fé, o olhar de quem para além de acreditar nas próprias e várias capacidades
de intervenção, confia por outro lado , entrega a própria vida a um Outro .Por
outro lado significa : trabalhando, rezando e ouvindo todas as sugestões do
coração, deixando que a procura apaixonada e livre da verdade indique caminhos
desconhecidos ou inesperados, prontos a assumir a responsabilidade de dar corpo
ao nosso compromisso pessoal a favor dos outros, com os outros.
Não vim para apresentar a
crónica dos acontecimentos. Já a conhecemos através dos media e das várias
análises sobre o que está a acontecer. Vou sobretudo dar a minha leitura dos
factos , sabendo que serei necessariamente parcial e aproximativo.
O Médio Oriente em radical mudança
O Médio Oriente voltou com
força à ribalta dos meios de comunicação social, mas agora chegou também às
preocupações de muitos. Egipto, Israel e Palestina, Líbia e sobretudo Síria e
Iraque estão no centro de uma profunda mudança ainda sem perspectivas
definidas. A estabilidade que durante 40 anos caracterizou as relações (ou
não-relações) entre estes países, acabou definitivamente, e estão a desenhar-se
novos equilíbrios que ainda não conseguimos definir e que são forte preocupação
para muitos, sobretudo para a pequena comunidade cristã e para as outras
minorias. Acabou o Médio Oriente que conhecemos no se. XX, o que surgiu das
ruínas do velho império otomano, do fim de diversos colonialismos e do
nascimento de estados nacionais. Começou um novo período, cujo desenvolvimento
não conseguimos ainda descortinar.
Este processo foi, porém, de
certo modo “sequestrado” por movimentos e partidos religiosos que
revolucionaram a natureza desta “primavera árabe” e a transformaram numa
autêntica luta de poder entre as várias componentes religiosas e sociais do
Médio Oriente, especialmente a luta entre chitas e sunitas. Uma luta de poder
obviamente não isenta de interesses de vários géneros (políticos, económicos,
energéticos, etc.) que não nos interessa aqui analisar. Sinal evidente de tal
involução em relação ao momento inicial da primavera árabe é a perseguição de
que os cristãos e as outras minorias religiosas foram vítimas nestes últimos
meses e a consolidação de movimentos e partidos islâmicos – alguns muito
extremistas.
Com efeito a relação com as
minorias deteriorou-se devido a perseguições e instrumentalizações de vário
género. Para compreender melhor a natureza das relações entre as várias
comunidades religiosas do Médio Oriente, temos que partir do seu contexto
histórico e social.
O Médio Oriente, muito mais
que a Europa, foi sempre um fervilhar de diferenças religiosas. Judaísmo,
Cristianismo e Islamismo têm o seu coração e a sua raiz no Médio Oriente.Cada uma delas conheceu divisões e evoluções
internas vivíssimas : sunitas, chitas, cristãos ortodoxos, coptas, siríacos e tantíssimas
outras comunidades surgiram ao longo dos séculos, tornando o Médio Oriente –
único no género em todo o mundo – um lugar de convivências. Há que dizer que
essas convivências nunca foram fáceis e não faltaram perseguições ao longo dos
séculos. Mas nunca se assistiu a uma “limpeza religiosa” como aquela que agora
se verifica.
Médio Oriente lugar de
convivências? Sim, certamente mais do que qualquer outra parte do mundo.
Explico o que digo através duma realidade que todos conhecemos. Se em Itália ou
em qualquer país europeu, se no Ocidente é organizadoum momento de encontro/diálogo com pessoas de
outras religiões, normalmente isso acontecenum ambiente que atenua as diferenças e que enfatiza as virtudes :
queremos ver o melhor dos outros e eles querem oferecer-nos o melhor de si
próprios. No Médio Oriente, quando encontramos um judeu, um muçulmano, um
copta, um arménio, cada um conserva a sua identidade. Encontramo-nos no
quotidiano, não num momento especial, vivemos juntos os mesmos problemas, cada um
de nós com a sua cultura, a sua fé, as suas tradições. Só temos em comum as
dificuldades do dia a dia, exactamente aquilo que seria deliberadamente
excluído caso esse encontro tivesse lugar no Ocidente. E isto é que é conviver:
viver com os outros, sem prevaricações,
sem imposições, sem espírito de conquista…
Importa compreender que as
identidades religiosas são ainda hoje no Médio Oriente também identidades
sociais e culturais. A fé não é só uma experiência religiosa pessoal, é também
definição de uma identidade pessoal e social. A religião é determinante, tanto
em sentido estrutural, como histórico, cultural e humano. É raro encontrar
sinais de elementos laicos, no sentido dos que foram introduzidos no Ocidente
pela Modernidade, onde Estado e Igreja são distintos e onde a fé é só um
aspecto mais ou menos relevante da vida social. No Médio Oriente a religião
está em todos os aspectos da vida quotidiana, pública e privada e embebe-a
profundamente. Assim a maior parte da população continua a regular e a cadenciar
a própria existência na base de um ethos
religioso consolidado, típico dos vários grupos a que pertence e profundamente
interiorizado pelos membros de cada comunidade.
A componente religiosa
constitui quase sempre um elemento essencial na construção de uma identidade
pessoal e tende a exprimir-se em alguns aspectos específicos, distintivos e
frequentes, entre eles por exemplo a participação activa na oração ritual e nas
celebrações,o modo de vestir, a opção
de expor e usar objectos e símbolos específicos do própriocredo, a escolha dos nomes dos filhos. Além
disso, cada individuo à nascença recebe um numero de identificação junto ao
qual é colocada uma sigla que define a fé a que pertence. Essa torna-se pois
parte integrante da sua identidade civil: cada um é definidoe considerado cristão, judeu ou muçulmano,
quer seja praticante quer não. Por fim, muitos dos aspectos da vida do país são
delegados às autoridades religiosas. Um exemplo significativo disto é o
matrimónio: não existem matrimónios civis, o matrimónio é sempre religioso o
que traz consequências notáveis a nível social.
A pertença religiosa, além
de nos definir em relação a nós próprios, define-nos também em relação ao
outro. A própria experiência religiosa e social é também definição do
relacionamento com o outro, a nível pessoal e social. Dois habitantes de
Jerusalém, apesar de terem a mesma cidadania, se pertencerem a duas religiões
diferentes terão dois modos completamente distintos de reagir a problemas
comuns e terão como referência dois modelos sociais completamente diferentes.
Em suma, pode-se ser ateu, mas continua-se a ser judeu, cristão, muçulmano,
etc.
Esta forma de convivência
inter-religiosa – diferente de integração, que é um desafio ocidental –
caracterizou durante séculos o Médio Oriente e, apesar de nunca ter sido nem
simples nem linear, é no entanto aquilo que define a sua constituição. É por
isso que cristãos das diversas confissões, muçulmanos sunitas, chitas, yasidi,
curdos, alawitas, druzos, etc, estão aqui ainda hoje no Médio Oriente.
A principal preocupação
neste momento é exactamente a subida ao poder sobretudo na Síria e no Iraque
mas não só, de movimentos islâmicos integralistas. As imagens que vemos
quotidianamente abalam as nossas consciências. Refiro-me em especial ao chamado
Estado Islâmico ou Califado, que elegeu como alvo de ataque não só as minorias
não islâmicas, mas também os muçulmanos que não partilham da sua doutrina.
As interrogações sobre estes
movimentos estão hoje no centro das preocupações de inteiras comunidades
religiosas em todo o Médio Oriente.
No interior das comunidades
cristãs assiste-se a uma tensão crescente, à saudade de garantias perdidas, à
tentação de partir que por vezes se torna uma necessidade, como vimos no
Iraque. O que fizeram aos cristãos e aos yasidi
na planície de Nínive é simplesmente vergonhoso.
A “limpeza religiosa” que
mancha o chamado Estado Islâmico, mas que é latente noutros pontos dos países
árabes, vai em primeiro lugar contra a história e o carácter do Médio Oriente e
não pode ser silenciada. É preciso que todas as comunidades religiosas levantem
as vozes contra esta ignomínia. O mundo islâmico começou finalmente a reagir a
isto, mas honestamente pareceu-nos uma denúncia muito tímida. Os media árabes
não deram grande destaque às declarações de vários leaders religiosos
muçulmanos. Neste momento o diálogo inter-religioso não pode prescindir duma
denúncia comum e forte do que está a acontecer. Assim exige a gravidade do
momento e a necessidade de continuar a viver e a dialogar juntos.
Além disso é evidente que há
que pôr fim a este tipo de fanatismo, nem que seja também pela força, depois de
tomadas as garantias necessárias. O uso da força, no entanto, não resolverá
nada sem um projecto de reconstrução em todos os aspectos. A força faz parar,
destrói. Porém se não se constrói, o vazio criado pelo uso da força, dará
origem a um maior extremismo. Porque há sempre alguém mais puro e mais justo do
que tu…
Isto também é válido para o
já antigo conflito israelo-palestiniano, de que queria falar o menos possível
porque honestamente não sei que mais dizer a este propósito. A força, sem uma
perspectiva de (re)construção social, económica, política, não levará senão a
um novo recurso ao uso da força, numa espécie de círculo vicioso . Como é que
se pode falar de paz ou de perspectiva de paz, se no coração estão sobretudo
acumulados ódio, rancor, dor, desejo de vingança pelas violências sofridas, se
não se constrói uma esperança? E não há família que não tenha tido experiências
de violência…
A força nunca é o caminho.
Pode por vezes ser necessária, como agora no Iraque, para abrir um caminho, mas
nunca para o construir. O Médio Oriente, a começar pela Terra Santa, Israel e
Palestina, tem uma necessidade urgente e dramática de individuar uma nova via
para delinear o próprio futuro, que só pode ser construído em conjunto, com
todas as diferentes sensibilidades que o compõem, e nunca um contra o outro.
Cristãos, muçulmanos,
curdos, judeus e todas as outras comunidades religiosas e étnicas, são parte
integrante da vida destes países e não vão desaparecer. Pensar conseguir faze-lo é
uma ilusão e ignorá-los é cegueira.
Verifica-se que, em
simultâneo com a lastimável traição da convivência histórica entre as diversas
comunidades religiosas, existem apesar de tudo em algumas cidades iraquianas
ocupadas por fundamentalistas, formas de solidariedade que importa assinalar.
Há poucas semanas, numa
visita à Síria, na massacrada cidade de Alepo constatei como desconhecidos se
uniram perante necessidades e emergências comuns. Conto só alguns exemplos.
A cidade de Alepo está há
meses sem água e o único recurso são os poços privados. Como é óbvio nem todos
os podem ter. E como falta também a electricidade ( não há mais do que duas
horas por dia), não é possível ter água sem ter um gerador. Por sua vez quase
não se encontra gasóleo, e o que se arranja é caríssimo. Enfim, para uma
família vulgar é impossível resolver este problema. Isto é, é impossível para
quase toda a populaçãoque ainda resta e
que é formada em grande parte por pobres que não têm para onde ir. Quem tem
poços são as principais instituições : mesquitas, igrejas, hospitais, etc. Vi
pessoalmente cristãos e muçulmanos em fila na igreja para ter água e cristãos
levarem água aos vizinhos muçulmanos e vice-versa. No nosso convento do Terra
Santa College de Alepo não há gerador, mas o vizinho muçulmano tem um. Então os
outros vizinhos, todos muçulmanos, fazem a colecta do dinheiro para o gasóleo,
o vizinho alimenta o gerador e os frades conseguem desta maneira ter água para
o bairro.
Os jesuítas, através do Jesuit Relief Service e usando uma
estrutura das irmãs franciscanas de Alepo, organizaram uma cozinha para bairros
inteiros da cidade. Mais de 10.000 refeições saem diariamente daquele convento
para serem distribuídas por todos. Os alimentos vêm de instituições islâmicas,
as irmãs organizam como sabem tão bem , e voluntários cristãos e muçulmanos
levam quotidianamente o alimento a quem precisa. É de notar que deslocar-se na
cidade é um perigo e ninguém, quando sai de casa, sabe se vai voltar. Não
obstante, há muitos que ainda saem e arriscam a pele, para fazer qualquer coisa
pelos outros. Não só pelos seus, mas pelos outros sem adjectivos.
Durante a minha permanência
em Alepo, os nossos vizinhos, isto é, a catedral e o episcopado católico sírio,
foram bombardeados duas vezes. Na primeira vez a igreja foi destruída pelos
rebeldes. Na segunda o episcopado foi atingido pelas forças governamentais,
para assim ter a par conditio! Em
ambos os casos, todos sem distinção se desdobraram para ajudar, apoiar,
encorajar. Nem que fosse só para estar ao nosso lado. Muitas vezes, de facto,
não se pode fazer nada além de assistir impotentes a este drama. Poderia dar
muitos mais exemplos e testemunhos. Mas creio já ter dado ideia do que se
passa.
O Médio Oriente está em
chamas. As antigas formas de convivência parecem esgotadas, e as novas não são
claras. Assistimos a fenómenos contraditórios e indecifráveis. Traição de
amizades antigas e criação de novas. Negação do outro e procura do outro. Ao
lado do coração que traiu está o coração que amou, dando de si e entregando-se.
Estes gestos e os de tantíssima gente anonima, presentes em todo o lado,
constituem a força secreta e necessária para ir mais além e não desistir apesar
da escuridão do momento. Para não cair sob o poder de Satanás. O vizinho que
está contigo, que diante de tanta gente tem um gesto de amizade, dá-te o fôlego
necessário para acreditar que é possível continuar a viver aqui juntos,
diferentes e unidos.
O poder do coração
Não sou um sonhador. Não
nego os problemas dramáticos, as traições e as crueldades que interrogam as
consciências de todos, que interpelam em especial o mundo islâmico, que nos exigem
ser firmes e claros ao pedir-lhes para terem também uma posição igualmente
firme e clara contra tudo isto. Mas creio que não baste. É necessário ter
sempre uma perspectiva definida que seja de reconstrução, de vida. Não basta
denunciar, é preciso indicar o caminho.
O mal que está diante de nós
interpela-nos como cristãos e pede-nos para o sermos mais , para o sermos
inteiramente. É nestas circunstâncias que somos chamados a viver totalmente a
nossa vocação cristã, sem fugas e sem medos. O mal não deve assustar um
cristão.
“Permanecer perfeitamente
tranquilos. Não com uma apatia estoica e impassibilidade diante do desabar do
mundo, mas com a certeza que a humanidade e o mundo estão nas mãos de DeusNenhuma destruição pode comprometero cumprimento da Sua vontade; nenhuma ruína
pode subtrair o homem ao Seu amor omnipotente. A vida do cristão é sempre a
mesma. Deus não te poupa a nenhuma dificuldade, a nenhuma provação; Deus parece
abandonar-te à força destrutiva do mal; mas se Ele viver em ti, será o mal a
ser destruído”, Divo Barsotti, ”A espera - diário 1973-1975”.
Ouve-se frequentemente
declarações e análises desesperadas da situação. Parece estarmos perto do fim
de tudo. Acabaram provavelmente os velhos modelos, mas com isso não acabou nem
o mundo nem nós mesmos. No entanto não é raro ouvir à nossa gentee até mesmo aos nossos religiosos, palavras
de desânimo e resignação. Também se fala de choque de civilizaçõese de uma espécie de chamada às armas não
muito disfarçada, para a nossa defesa. Nada disto tem a ver com a fé cristã.
Assim estamos a esquecer um
facto fundamental: o cristianismo nasce na cruz e não pode prescindir dela.
Jesus torna-se rei do mundo na cruz, não com o sucesso da multiplicação dos
pães. Enfim, o cristianismo nasce de uma falência humana, de uma derrota. E de
um coração trespassado. Quando falamos do poder do coração, é para lá que
devemos olhar, para aquele coração que é a medida do amor de Deus e
consequentemente do nosso. O nosso agir de cristãos deve ter como medida aquele
coração. Esquecemos muitas vezes isto ecaímos na tentação de pensar que serão as nossas obras que nos vão
salvar, mesmo aqui na terra.
Para um cristão a análise de
qualquer realidade não é completa se não for feita tendo também Cristo como
referência. Só tendo Cristo como referência consegues compreender a verdade de
um acontecimento. Não é através de uma ideologia, mas sim através de uma
Pessoa, que se torna modelo do teu agir e pensar.
Como não recordar o episódio
do Evangelho Mc 4, 35-41, do barco agitado
pelas ondas, o pânico dos discípulos e a repreensão: ”Porque tendes medo?
Ainda não tendes fé?” Não sei se as várias estratégias ocidentais e
internacionais podem ajudar. Talvez sim. Devem-se encontrar urgentemente
perspectivas políticas. Mas não serão elas a salvar o cristianismo no Médio
Oriente. A barca de Pedro andará sempre agitada e haverá sempre alguém lá
dentro a dizer o que fazer. Mas só o Seu comandante, o Senhor, poderá acalmar a
tempestade.
A nossa presença será salva
pelos mais pequenos, pelos que se comprometem com coragem e desafiam a morte
,amando o irmão gratuitamente, até ao ponto de se deixar trespassar. Sendo
cristãos até ao fim.
As imagens que nos mostram
do Médio Oriente são oprimentes e desconsoladoras; é legítimo interrogarmo-nos
sobre o que devemos ou podemos fazer , mas é obrigatórioempenharmo-nos concretamente para pôr fim a
esta tragédia que diz respeito a todos. Porém o nosso agir tem que ser
acompanhado pela convicçãoprofunda e
serena de que, para ter fruto, deve estar unido a Cristo.
“Toda a solidariedade e
união com os homens dá seguimento à solidariedade de Jesus com toda a
humanidade, mas se esta acabasse, seria prova da falência suprema porque ela
consuma-se e torna-se perfeita na morte na cruz. A morte na cruz é o caminho
para a ressurreição e a ressurreição já não é a solidariedade de Jesus com os
homens, mas sim a união dos homens com Jesus ressuscitado.
“Toda a solidariedade com os
homens, toda a união com eles é o meio e o caminho necessários para a união dos
homens com Deus; se ela não levar a esta união com Deus, então é vã, não salva,
faz-nos unicamente participantes da dor, da pobreza, da morte: não nos dá a
vida”: Divo Barsotti. “A espera. Diário 1973-1975.
Quero concluir com outras duas
imagens de alguns meses atras, também ligadas ao Médio Oriente, mesmo que
pareçam de há anos, completamente diferentes do que vemos hoje.
A primeira diz respeito ao
encontro entre o Patriarca Bartolomeu e o Papa Francisco no Santo Sepulcro, em
Jerusalém. Aquela basílica, que guarda a memória da morte e ressurreição de
Cristo, mas também das tristes divisões entre cristãos, teve pele primeira vez
da sua história o encontro entre duas realidades, a ortodoxa e a católica, que
durante anos se combateram. É verdade que as divisões persistem e ainda hoje
depois daquele momento, parece ter voltado tudo a ser como dantes. Mas, mesmo
que quiséssemos, não é como dantes. Aqueles sinais são poderosos e comprometem
os que os propõem. As duas igrejas comprometeram-se a confrontar-se de maneira
positiva. O caminho a fazer é ainda longo, mas foi aberto e delineado.
A segunda imagem está ligada
ao momento de oração no Vaticano, desejado pelo Papa Francisco e pelo Patriarca
Bartolomeu, com os presidentes dos dois países inimigos de sempre, Israel e
Palestina.
É verdade, também neste caso, que politicamente os dois presidentes não podiam nem podem fazer muito, e o
Papa ainda menos. Imediatamente a seguir desencadeou-se uma violência inaudita
e inexplicável entre os dois intervenientes, que parece quase querer negar
aquele momento histórico. Mas também neste caso os sinais foram dados e o
caminho indicado. As imagens de morte que temos visto até agora, os
bombardeamentos, os mísseis, mas sobretudo o ódio profundo que é alimentado com
esta violência, não devem ser separadas daquelas dos dois presidentes a rezar
juntos pela paz. Elas dizem-nos que é possível. Ajudam-nos a erguer o olhar.
Aquecem-nos o coração.
O Médio Oriente é também isto.
No Médio Oriente precisamos
de tudo: de ajuda financeira, militar, politica, de mediadores e de apoios… mas
sobretudo precisamos de acreditar que ainda é possível sermos amigos. Os
testemunhos dizem-nos que, apesar de tudo, e graças aos mais pequenos, esta
força ainda está viva.
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas
Naquele tempo,
Jesus disse aos seus discípulos uma parábola
sobre a necessidade de orar sempre sem
desanimar:
«Em certa cidade vivia um juiz
que não temia a Deus nem respeitava os
homens.
Havia naquela cidade uma viúva que vinha ter
com ele e lhe dizia:
‘Faz-me justiça contra o meu adversário’.
Durante muito tempo ele não quis atendê-la.
Mas depois disse consigo:
‘É certo que eu não temo a Deus nem respeito
os homens;
mas, porque esta viúva me importuna, vou
fazer-lhe justiça,
para que não venha incomodar-me
indefinidamente’».
E o Senhor acrescentou:
«Escutai o que diz o juiz iníquo!…
E Deus não havia de fazer justiça aos seus
eleitos,
que por Ele clamam dia e noite, e iria
fazê-los esperar muito tempo?
Eu vos digo que lhes fará justiça bem
depressa.
Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará
fé sobre esta terra?»
Meditação de Mons.
Pizzaballa
O primeiro versículo do extracto que ouvimos
aponta para o contexto do conjunto do relato: nós ficamos a saber pelo
Evangelista que Jesus conta uma parábola sobre a oração, ou antes sobre a
necessidade de rezar sempre, sem desencorajar (Lc. 18,1).
Antes
de nos debruçarmos sobre a parábola, detenhamo-nos nos elementos do contexto,
que nos dizem alguma coisa de importante a propósito da oração.
O
primeiro elemento é o termo “necessidade”: rezar, para Jesus é algo de
necessário uma necessidade e não uma opção. É alguma coisa que faz parte da
vida, e não algo de assessório que possa existir ou não sem que a vida seja
mudada. Com efeito, poder-se-ia dizer que a oração é uma questão de vida ou de
morte como o revela a primeira leitura (Ex. 17, 8-13) que conta como a oração
ajuda na luta do povo conta os Amalequi: se Moisés rezar o povo vence, mas se
Moisés deixar de rezar o povo sucumbe.
Em
seguida nós devemos sempre rezar: se a oração é a nossa vida, então devemos
rezar “sempre”. A oração não é uma actividade com um princípio e um fim: mas é
como a respiração da nossa vida, nunca se interrompe.
Por
fim, devemos rezar “sem nos desencorajarmos”: o que indica que também existe a
possibilidade de nos cansarmos, que a nossa vida e a nossa relação com o Senhor
tenha momentos de cansaço, de aridez; conhecemos momentos de dúvida e de
interrogação principalmente quando parece que o Senhor não nos ouve, não
intervêm.
Após
esta introdução, começa o relato da parábola que não vai desenvolver senão uma
parte dos temas abordados na introdução, mas que abre novos horizontes e que
desloca a questão. No fim, com efeito, a questão não é mais oração, mas a fé: “
Quando o filho do homem vier, encontrará fé na Terra?” (Lc. 18, 8).
No
centro da parábola está, em seguida, o tema da justiça: encontramos quatro
vezes a expressão “fazer justiça” através da qual a oração é considerada com o
nosso recurso a Deus para que ele intervinha nas nossas vidas e faça justiça.
Encontramos
aqui um tema que está muitas vezes presente nos Salmos nos quais o coração
ferido do salmista levanta a sua invocação a Deus: “Faz-me justiça, oh Deus”.
(Salmos 26,1; 43,…).
Aquele
que pede a Deus que lhe seja feita justiça não pode ser senão uma vítima de
abusos: na nossa parábola, trata-se de uma viúva, que alguém que, pela sua
condição, não tem ninguém que a proteja encontrando-se assim na impossibilidade
de ver os seus direitos garantidos.
No
Antigo Testamento, as viúvas, os órfãos e os estrangeiros eram um grupo social
particularmente exposto aos abusos e às injustiças tendo assim, mais do que
nenhum outro, necessidade de uma atenção especial por parte de Deus. E o
próprio Deus faz-se protector deles.
A
viúva torna-se o símbolo de todos os que, na história, sofrem injustamente e
com quem ninguém se preocupa. São tão numerosos.
Para
mostrar como o Pai toma conta deles, Jesus recorre a um juiz desonesto, que se
não preocupa com os problemas da viúva: “ele não temia a Deus e não respeitava
os homens” (Lc. 18, 2.4). Este último decide finalmente intervir não porque
tenha sido levado pela compaixão, mas simplesmente por oportunismo, para que o
deixem em paz. Jesus diz então que se este juiz acabou por intervir, quanto
maior e mais rápida será a intervenção do nosso Pai, que no seu coração só quer
o nosso bem.
O
problema não está aí, diz Jesus, pois a intervenção no relato é algo
considerado como certo. Do que se não tem a certeza, diz o Senhor, é que
tenhamos a fé necessária para O reconhecer e Lhe darmos graças. E, aqui,
voltamos ao tema de domingo passado, a fé: a fé, pequena mas tenaz como um grão
de mostarda que permitiu ao leproso curado reconhecer a salvação que entrou na
sua vida. A fé que hoje nos permite continuar a acreditar que Deus não nos
abandona e que, em dado momento, intervirá e fará justiça.
Fazer
justiça – ou seja proteger o sentido da vida e do relato, ou ainda cumprir o
Seu desejo de amor – pertence ao Pai, mas a sua realização é da nossa
responsabilidade.
E a
oração é o espaço que nos permite continuar a acreditar, a ter uma relação de
confiança Nele, mesmo quando o mistério da injustiça põe à prova a nossa fé.
Nesta
fase, é necessário dar um passo porque pensamos que a justiça divina é parecida
com a justiça humana, mas liberta de qualquer erros ou ambiguidade possível.
Mas para Deus a justiça é algo de completamente diferente.
Por
duas vezes, a expressão justiça aparece no Evangelho de Lucas e refere-se a
Jesus. As duas encontram-se no relato da paixão. A primeira quando o bom ladrão
(Lc. 23, 39-43) reconhece que Jesus é um justo e quando diz que ele próprio e o
outro ladrão são condenados à morte justamente, enquanto Jesus nada fez de mal.
A
segunda, alguns versículos mais à frente, (v. 47) quando vemos o centurião
pagão que reconhece a justiça de Deus, isto depois de ter visto a forma como
Jesus encarou a morte, ele que sofreu de injustiça mais do que qualquer outra
pessoa.
Poderíamos
dizer que pedir a Deus que faça justiça significa também que lhe pedimos que
saibamos viver a nossa vida como Jesus na cruz; o que não significa sofremos a
injustiça, mas vencê-la na oferta de um amor maior; escolhendo continuar a ser
“justo”, tomando sobre si a injustiça para a transformar em bem.
É
assim que o nosso pedido muda e que muda também a nossa oração. E esta
transformação é a única condição para que a nossa oração seja infatigável: a
oração só resiste se nós nos deixarmos transformar, se nós aceitarmos mudar,
crescer. Ela não muda a realidade, mas ela aperfeiçoa a nossa prece, tornando-a
cada vez mais e mais em consonância com o pensamento de Deus.