quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Gente da Terra Santa - São Mateus


São Mateus - por Guido Reni


Mateus

Queridos irmãos e irmãs!

Prosseguindo a série de retratos dos doze Apóstolos, que começámos há algumas semanas, hoje detemo-nos em Mateus. Na verdade, apresentar completamente a sua figura é quase impossível, porque as notícias que lhe dizem respeito são poucas e fragmentadas. Mas o que podemos fazer, não é tanto um esboço da sua biografia, mas ao contrário o perfil que o Evangelho transmite.

Entretanto, ele está sempre presente nos elencos dos Doze escolhidos por Jesus (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 15; Act 1, 13). O seu nome hebraico significa "dom de Deus". O primeiro Evangelho canónico, que tem o seu nome, apresenta-no-lo no elenco dos Doze com uma qualificação bem clara: "o publicano" (Mt 10, 3). Desta forma ele é identificado com o homem sentado no banco dos impostos, que Jesus chama ao seu seguimento:  "Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe:  "Segue-me!". Ele levantou-se e seguiu-o" (Mt 9, 9). Também Marcos (cf. 2, 13-17) e Lucas (cf. 5, 27-30) narram a chamada do homem sentado no posto de cobrança, mas chamam-no "Levi". Para imaginar o cenário descrito em Mt 9, 9 é suficiente recordar a magnífica tela de Caravaggio, conservada aqui em Roma na Igreja de São Luís dos Franceses. Dos Evangelhos sobressai um ulterior pormenor biográfico:  no trecho que precede imediatamente a narração da chamada é referido um milagre realizado por Jesus em Cafarnaum (cf. Mt 9, 1-8; Mc 2, 1-12) e é mencionada a proximidade do Mar da Galileia, isto é do Lago de Tiberíades (cf. Mc 2, 13-14). Disto pode deduzir-se que Mateus desempenhasse a função de cobrador em Cafarnaúm, situada precisamente "à beira-mar" (Mt 4, 13), onde Jesus era hóspede fixo na casa de Pedro.

Com base nestas simples constatações que resultam do Evangelho podemos fazer algumas reflexões. A primeira é que Jesus acolhe no grupo dos seus íntimos um homem que, segundo as concepções em vigor na Israel daquele tempo, era considerado um público pecador. De facto, Mateus não só administrava dinheiro considerado impuro devido à sua proveniência de pessoas estranhas ao povo de Deus, mas colaborava também com uma autoridade estrangeira odiosamente ávida, cujos tributos podiam ser determinados também de modo arbitrário. Por estes motivos, mais de uma vez os Evangelhos falam unitariamente de "publicanos e pecadores" (Mt 9, 10; Lc 15, 1), de "publicanos e prostitutas" (Mt 21, 31). Além disso eles vêem nos publicanos um exemplo de mesquinhez (cf. Mt 5, 46:  amam os que os amam) e mencionam um deles, Zaqueu, como "chefe dos publicanos e rico" (Lc 19, 2), enquanto a opinião popular os associava a "ladrões, injustos, adúlteros" (Lc 18, 11). É ressaltado um primeiro dado com base nestes elementos: Jesus não exclui ninguém da própria amizade. Ao contrário, precisamente porque se encontra à mesa em casa de Mateus-Levi, em resposta a quem falava de escândalo pelo facto de ele frequentar companhias pouco recomendáveis, pronuncia a importante declaração:  "Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os enfermos. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores" (Mc 2, 17).

O bom anúncio do Evangelho consiste precisamente nisto: na oferenda da graça de Deus ao pecador! Noutro texto, com a célebre parábola do fariseu e do publicano que foram ao Templo para rezar, Jesus indica inclusivamente um anónimo publicano como exemplo apreciável de confiança humilde na misericórdia divina:  enquanto o fariseu se vangloria da própria perfeição moral, "o cobrador de impostos... nem sequer ousava levantar os olhos para o céu, mas batia no peito, dizendo: "Ó Deus, tem piedade de mim, que sou pecador"". E Jesus comenta: "Digo-vos: Este voltou justificado para sua casa, e o outro não. Porque todo aquele que se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado" (Lc 18, 13-14). Na figura de Mateus, portanto, os Evangelhos propõem-nos um verdadeiro e próprio paradoxo:  quem aparentemente está afastado da santidade pode até tornar-se um modelo de acolhimento da misericórdia de Deus e deixar entrever os seus maravilhosos efeitos na própria existência. Em relação a isto, São João Crisóstomo faz uma significativa anotação:  ele observa que só na narração de algumas chamadas se menciona o trabalho que as pessoas em questão desempenhavam. Pedro, André, Tiago e João são chamados quando estão a pescar, Mateus precisamente quando cobra os impostos. Trata-se de trabalhos de pouca importância — comenta Crisóstomo — "porque não há nada mais detestável do que um cobrador de impostos e nada de mais comum do que a pesca" (In Matth. Hom.: PL 57, 363). A chamada de Jesus chega portanto também a pessoas de baixo nível social, enquanto desempenham o trabalho quotidiano.

Outra reflexão, que provém da narração evangélica, é que à chamada de Jesus, Mateus responde imediatamente: "ele levantou-se e seguiu-o". A condensação da frase ressalta claramente a prontidão de Mateus ao responder à chamada. Isto significava para ele o abandono de todas as coisas, sobretudo do que lhe garantia uma fonte de lucro seguro, mesmo se muitas vezes injusto e desonesto. Evidentemente Mateus compreendeu que a familiaridade com Jesus não lhe permitia perseverar em actividades desaprovadas por Deus. Intuiu-se facilmente a aplicação ao presente:  também hoje não é admissível o apego a coisas incompatíveis com o seguimento de Jesus, como é o caso das riquezas desonestas. Certa vez Ele disse sem meios-termos:  "Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu; depois, vem e segue-me" (Mt 19, 21). Foi precisamente isto que Mateus fez: levantou-se e seguiu-o! Neste "levantar-se" é legítimo ver o abandono de uma situação de pecado e ao mesmo tempo a adesão consciente a uma existência nova, recta, na comunhão com Jesus.

Por fim, recordamos que a tradição da Igreja antiga concorda na atribuição a Mateus da paternidade do primeiro Evangelho. Isto acontece já a partir de Papias, Bispo de Hierápoles na Frígia por volta do ano 130. Ele escreve: "Mateus reuniu as palavras (do Senhor) em língua hebraica, e cada um as interpretou como podia" (em Eusébio de Cesareia, Hist. eccl. III, 39, 16).


O historiador Eusébio acrescenta esta notícia: "Mateus, que primeiro tinha pregado aos hebreus, quando decidiu ir também a outros povos escreveu na sua língua materna o Evangelho por ele anunciado; assim, procurou substituir com a escrita, junto daqueles dos quais se separava, aquilo que eles perdiam com a sua partida" (ibid., III, 24, 6). Já não temos o Evangelho escrito por Mateus em hebraico ou em aramaico, mas no Evangelho grego que ainda continuamos a ouvir, de certa forma, a voz persuasiva do publicano Mateus que, tendo-se tornado Apóstolo, continua a anunciar-nos a misericórdia salvadora de Deus e ouvimos esta mensagem de São Mateus, meditámo-la sempre de novo para aprender também nós a levantar-nos e a seguir Jesus com determinação.

PAPA BENTO XVI

AUDIÊNCIA GERAL Quarta-feira, 30 de Agosto de 2006

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

«Precisamos de acreditar que ainda é possível sermos amigos»

«O poder do coração»
Meeting de Rimini
29 de Agosto de 2014



É difícil, em pouco tempo e neste contexto, entrar num tema tão vasto e complexo como o do Médio Oriente, hoje a ferro e fogo e em transformação radical e dramática.

Ainda mais difícil é relacionar esta situação trágica com “o poder do coração”,  tema do nosso encontro. Que poderá fazer o coração perante o drama humanitário que os media nos mostram há meses? Será com certeza preciso bem mais do que uma palavra amiga ou bons sentimentos.

Penso que esteja errado limitar-se a uma análise (admitindo que se consiga faze-la) política, social e histórica do que está a acontecer, sem ter também uma visão religiosa , isenta, que ajude a ler e a interpretar  os acontecimentos sem se deixar envolver neles. Estes dois âmbitos necessitam um do outro. Precisamos de especialistas que nos ajudem a compreender as mudanças radicais a que estamos a assistir do ponto de vista político, económico e social. Mas também precisamos de um olhar do alto, alargado, livre de medos e complexos.

Nestes últimos meses, em Jerusalém, fomos invadidos por pedidos e propostas vindos das mais imprevisíveis associações e movimentos internacionais de caracter absolutamente laico, que, preocupados com o que está a acontecer, se querem empenhar nas mais várias iniciativas de âmbito cultural, político e até mesmo militar para “salvar o cristianismo e a sua cultura no Médio Oriente,” e não só. São preocupações legítimas, como infelizmente constatamos, mas às quais falta o olhar de fé, o olhar de quem para além de acreditar nas próprias e várias capacidades de intervenção, confia por outro lado , entrega a própria vida a um Outro .Por outro lado significa : trabalhando, rezando e ouvindo todas as sugestões do coração, deixando que a procura apaixonada e livre da verdade indique caminhos desconhecidos ou inesperados, prontos a assumir a responsabilidade de dar corpo ao nosso compromisso pessoal a favor dos outros, com os outros.

Não vim para apresentar a crónica dos acontecimentos. Já a conhecemos através dos media e das várias análises sobre o que está a acontecer. Vou sobretudo dar a minha leitura dos factos , sabendo que serei necessariamente parcial e aproximativo.

O Médio Oriente em radical mudança
O Médio Oriente voltou com força à ribalta dos meios de comunicação social, mas agora chegou também às preocupações de muitos. Egipto, Israel e Palestina, Líbia e sobretudo Síria e Iraque estão no centro de uma profunda mudança ainda sem perspectivas definidas. A estabilidade que durante 40 anos caracterizou as relações (ou não-relações) entre estes países, acabou definitivamente, e estão a desenhar-se novos equilíbrios que ainda não conseguimos definir e que são forte preocupação para muitos, sobretudo para a pequena comunidade cristã e para as outras minorias. Acabou o Médio Oriente que conhecemos no se. XX, o que surgiu das ruínas do velho império otomano, do fim de diversos colonialismos e do nascimento de estados nacionais. Começou um novo período, cujo desenvolvimento não conseguimos ainda descortinar.

Este processo foi, porém, de certo modo “sequestrado” por movimentos e partidos religiosos que revolucionaram a natureza desta “primavera árabe” e a transformaram numa autêntica luta de poder entre as várias componentes religiosas e sociais do Médio Oriente, especialmente a luta entre chitas e sunitas. Uma luta de poder obviamente não isenta de interesses de vários géneros (políticos, económicos, energéticos, etc.) que não nos interessa aqui analisar. Sinal evidente de tal involução em relação ao momento inicial da primavera árabe é a perseguição de que os cristãos e as outras minorias religiosas foram vítimas nestes últimos meses e a consolidação de movimentos e partidos islâmicos – alguns muito extremistas.

Com efeito a relação com as minorias deteriorou-se devido a perseguições e instrumentalizações de vário género. Para compreender melhor a natureza das relações entre as várias comunidades religiosas do Médio Oriente, temos que partir do seu contexto histórico e social.

O Médio Oriente, muito mais que a Europa, foi sempre um fervilhar de diferenças religiosas. Judaísmo, Cristianismo e Islamismo têm o seu coração e a sua raiz no Médio Oriente.  Cada uma delas conheceu divisões e evoluções internas vivíssimas : sunitas, chitas, cristãos ortodoxos, coptas, siríacos e tantíssimas outras comunidades surgiram ao longo dos séculos, tornando o Médio Oriente – único no género em todo o mundo – um lugar de convivências. Há que dizer que essas convivências nunca foram fáceis e não faltaram perseguições ao longo dos séculos. Mas nunca se assistiu a uma “limpeza religiosa” como aquela que agora se verifica.

Médio Oriente lugar de convivências? Sim, certamente mais do que qualquer outra parte do mundo. Explico o que digo através duma realidade que todos conhecemos. Se em Itália ou em qualquer país europeu, se no Ocidente é organizado  um momento de encontro/diálogo com pessoas de outras religiões, normalmente isso acontece  num ambiente que atenua as diferenças e que enfatiza as virtudes : queremos ver o melhor dos outros e eles querem oferecer-nos o melhor de si próprios. No Médio Oriente, quando encontramos um judeu, um muçulmano, um copta, um arménio, cada um conserva a sua identidade. Encontramo-nos no quotidiano, não num momento especial, vivemos juntos os mesmos problemas, cada um de nós com a sua cultura, a sua fé, as suas tradições. Só temos em comum as dificuldades do dia a dia, exactamente aquilo que seria deliberadamente excluído caso esse encontro tivesse lugar no Ocidente. E isto é que é conviver:  viver com os outros, sem prevaricações, sem imposições, sem espírito de conquista…

Importa compreender que as identidades religiosas são ainda hoje no Médio Oriente também identidades sociais e culturais. A fé não é só uma experiência religiosa pessoal, é também definição de uma identidade pessoal e social. A religião é determinante, tanto em sentido estrutural, como histórico, cultural e humano. É raro encontrar sinais de elementos laicos, no sentido dos que foram introduzidos no Ocidente pela Modernidade, onde Estado e Igreja são distintos e onde a fé é só um aspecto mais ou menos relevante da vida social. No Médio Oriente a religião está em todos os aspectos da vida quotidiana, pública e privada e embebe-a profundamente. Assim a maior parte da população continua a regular e a cadenciar a própria existência na base de um ethos religioso consolidado, típico dos vários grupos a que pertence e profundamente interiorizado pelos membros de cada comunidade.

A componente religiosa constitui quase sempre um elemento essencial na construção de uma identidade pessoal e tende a exprimir-se em alguns aspectos específicos, distintivos e frequentes, entre eles por exemplo a participação activa na oração ritual e nas celebrações,  o modo de vestir, a opção de expor e usar objectos e símbolos específicos do próprio  credo, a escolha dos nomes dos filhos. Além disso, cada individuo à nascença recebe um numero de identificação junto ao qual é colocada uma sigla que define a fé a que pertence. Essa torna-se pois parte integrante da sua identidade civil: cada um é definido  e considerado cristão, judeu ou muçulmano, quer seja praticante quer não. Por fim, muitos dos aspectos da vida do país são delegados às autoridades religiosas. Um exemplo significativo disto é o matrimónio: não existem matrimónios civis, o matrimónio é sempre religioso o que traz consequências notáveis a nível social.

A pertença religiosa, além de nos definir em relação a nós próprios, define-nos também em relação ao outro. A própria experiência religiosa e social é também definição do relacionamento com o outro, a nível pessoal e social. Dois habitantes de Jerusalém, apesar de terem a mesma cidadania, se pertencerem a duas religiões diferentes terão dois modos completamente distintos de reagir a problemas comuns e terão como referência dois modelos sociais completamente diferentes. Em suma, pode-se ser ateu, mas continua-se a ser judeu, cristão, muçulmano, etc.
Esta forma de convivência inter-religiosa – diferente de integração, que é um desafio ocidental – caracterizou durante séculos o Médio Oriente e, apesar de nunca ter sido nem simples nem linear, é no entanto aquilo que define a sua constituição. É por isso que cristãos das diversas confissões, muçulmanos sunitas, chitas, yasidi, curdos, alawitas, druzos, etc, estão aqui ainda hoje no Médio Oriente.
A principal preocupação neste momento é exactamente a subida ao poder sobretudo na Síria e no Iraque mas não só, de movimentos islâmicos integralistas. As imagens que vemos quotidianamente abalam as nossas consciências. Refiro-me em especial ao chamado Estado Islâmico ou Califado, que elegeu como alvo de ataque não só as minorias não islâmicas, mas também os muçulmanos que não partilham da sua doutrina.

As interrogações sobre estes movimentos estão hoje no centro das preocupações de inteiras comunidades religiosas em todo o Médio Oriente.

No interior das comunidades cristãs assiste-se a uma tensão crescente, à saudade de garantias perdidas, à tentação de partir que por vezes se torna uma necessidade, como vimos no Iraque. O que fizeram aos cristãos e aos yasidi na planície de Nínive é simplesmente vergonhoso.

A “limpeza religiosa” que mancha o chamado Estado Islâmico, mas que é latente noutros pontos dos países árabes, vai em primeiro lugar contra a história e o carácter do Médio Oriente e não pode ser silenciada. É preciso que todas as comunidades religiosas levantem as vozes contra esta ignomínia. O mundo islâmico começou finalmente a reagir a isto, mas honestamente pareceu-nos uma denúncia muito tímida. Os media árabes não deram grande destaque às declarações de vários leaders religiosos muçulmanos. Neste momento o diálogo inter-religioso não pode prescindir duma denúncia comum e forte do que está a acontecer. Assim exige a gravidade do momento e a necessidade de continuar a viver e a dialogar juntos.

Além disso é evidente que há que pôr fim a este tipo de fanatismo, nem que seja também pela força, depois de tomadas as garantias necessárias. O uso da força, no entanto, não resolverá nada sem um projecto de reconstrução em todos os aspectos. A força faz parar, destrói. Porém se não se constrói, o vazio criado pelo uso da força, dará origem a um maior extremismo. Porque há sempre alguém mais puro e mais justo do que tu…

Isto também é válido para o já antigo conflito israelo-palestiniano, de que queria falar o menos possível porque honestamente não sei que mais dizer a este propósito. A força, sem uma perspectiva de (re)construção social, económica, política, não levará senão a um novo recurso ao uso da força, numa espécie de círculo vicioso . Como é que se pode falar de paz ou de perspectiva de paz, se no coração estão sobretudo acumulados ódio, rancor, dor, desejo de vingança pelas violências sofridas, se não se constrói uma esperança? E não há família que não tenha tido experiências de violência…

A força nunca é o caminho. Pode por vezes ser necessária, como agora no Iraque, para abrir um caminho, mas nunca para o construir. O Médio Oriente, a começar pela Terra Santa, Israel e Palestina, tem uma necessidade urgente e dramática de individuar uma nova via para delinear o próprio futuro, que só pode ser construído em conjunto, com todas as diferentes sensibilidades que o compõem, e nunca um contra o outro.

Cristãos, muçulmanos, curdos, judeus e todas as outras comunidades religiosas e étnicas, são parte integrante da vida destes países e não vão desaparecer. Pensar conseguir faze-lo é uma ilusão e ignorá-los é cegueira.

Verifica-se que, em simultâneo com a lastimável traição da convivência histórica entre as diversas comunidades religiosas, existem apesar de tudo em algumas cidades iraquianas ocupadas por fundamentalistas, formas de solidariedade que importa assinalar.

Há poucas semanas, numa visita à Síria, na massacrada cidade de Alepo constatei como desconhecidos se uniram perante necessidades e emergências comuns. Conto só alguns exemplos.

A cidade de Alepo está há meses sem água e o único recurso são os poços privados. Como é óbvio nem todos os podem ter. E como falta também a electricidade ( não há mais do que duas horas por dia), não é possível ter água sem ter um gerador. Por sua vez quase não se encontra gasóleo, e o que se arranja é caríssimo. Enfim, para uma família vulgar é impossível resolver este problema. Isto é, é impossível para quase toda a população  que ainda resta e que é formada em grande parte por pobres que não têm para onde ir. Quem tem poços são as principais instituições : mesquitas, igrejas, hospitais, etc. Vi pessoalmente cristãos e muçulmanos em fila na igreja para ter água e cristãos levarem água aos vizinhos muçulmanos e vice-versa. No nosso convento do Terra Santa College de Alepo não há gerador, mas o vizinho muçulmano tem um. Então os outros vizinhos, todos muçulmanos, fazem a colecta do dinheiro para o gasóleo, o vizinho alimenta o gerador e os frades conseguem desta maneira ter água para o bairro.

Os jesuítas, através do Jesuit Relief Service e usando uma estrutura das irmãs franciscanas de Alepo, organizaram uma cozinha para bairros inteiros da cidade. Mais de 10.000 refeições saem diariamente daquele convento para serem distribuídas por todos. Os alimentos vêm de instituições islâmicas, as irmãs organizam como sabem tão bem , e voluntários cristãos e muçulmanos levam quotidianamente o alimento a quem precisa. É de notar que deslocar-se na cidade é um perigo e ninguém, quando sai de casa, sabe se vai voltar. Não obstante, há muitos que ainda saem e arriscam a pele, para fazer qualquer coisa pelos outros. Não só pelos seus, mas pelos outros sem adjectivos.

Durante a minha permanência em Alepo, os nossos vizinhos, isto é, a catedral e o episcopado católico sírio, foram bombardeados duas vezes. Na primeira vez a igreja foi destruída pelos rebeldes. Na segunda o episcopado foi atingido pelas forças governamentais, para assim ter a par conditio! Em ambos os casos, todos sem distinção se desdobraram para ajudar, apoiar, encorajar. Nem que fosse só para estar ao nosso lado. Muitas vezes, de facto, não se pode fazer nada além de assistir impotentes a este drama. Poderia dar muitos mais exemplos e testemunhos. Mas creio já ter dado ideia do que se passa.

O Médio Oriente está em chamas. As antigas formas de convivência parecem esgotadas, e as novas não são claras. Assistimos a fenómenos contraditórios e indecifráveis. Traição de amizades antigas e criação de novas. Negação do outro e procura do outro. Ao lado do coração que traiu está o coração que amou, dando de si e entregando-se. Estes gestos e os de tantíssima gente anonima, presentes em todo o lado, constituem a força secreta e necessária para ir mais além e não desistir apesar da escuridão do momento. Para não cair sob o poder de Satanás. O vizinho que está contigo, que diante de tanta gente tem um gesto de amizade, dá-te o fôlego necessário para acreditar que é possível continuar a viver aqui juntos, diferentes e unidos.

O poder do coração
Não sou um sonhador. Não nego os problemas dramáticos, as traições e as crueldades que interrogam as consciências de todos, que interpelam em especial o mundo islâmico, que nos exigem ser firmes e claros ao pedir-lhes para terem também uma posição igualmente firme e clara contra tudo isto. Mas creio que não baste. É necessário ter sempre uma perspectiva definida que seja de reconstrução, de vida. Não basta denunciar, é preciso indicar o caminho.

O mal que está diante de nós interpela-nos como cristãos e pede-nos para o sermos mais , para o sermos inteiramente. É nestas circunstâncias que somos chamados a viver totalmente a nossa vocação cristã, sem fugas e sem medos. O mal não deve assustar um cristão.

“Permanecer perfeitamente tranquilos. Não com uma apatia estoica e impassibilidade diante do desabar do mundo, mas com a certeza que a humanidade e o mundo estão nas mãos de Deus  Nenhuma destruição pode comprometer  o cumprimento da Sua vontade; nenhuma ruína pode subtrair o homem ao Seu amor omnipotente. A vida do cristão é sempre a mesma. Deus não te poupa a nenhuma dificuldade, a nenhuma provação; Deus parece abandonar-te à força destrutiva do mal; mas se Ele viver em ti, será o mal a ser destruído”, Divo Barsotti, ”A espera - diário 1973-1975”.

Ouve-se frequentemente declarações e análises desesperadas da situação. Parece estarmos perto do fim de tudo. Acabaram provavelmente os velhos modelos, mas com isso não acabou nem o mundo nem nós mesmos. No entanto não é raro ouvir à nossa gente  e até mesmo aos nossos religiosos, palavras de desânimo e resignação. Também se fala de choque de civilizações  e de uma espécie de chamada às armas não muito disfarçada, para a nossa defesa. Nada disto tem a ver com a fé cristã.

Assim estamos a esquecer um facto fundamental: o cristianismo nasce na cruz e não pode prescindir dela. Jesus torna-se rei do mundo na cruz, não com o sucesso da multiplicação dos pães. Enfim, o cristianismo nasce de uma falência humana, de uma derrota. E de um coração trespassado. Quando falamos do poder do coração, é para lá que devemos olhar, para aquele coração que é a medida do amor de Deus e consequentemente do nosso. O nosso agir de cristãos deve ter como medida aquele coração. Esquecemos muitas vezes isto e  caímos na tentação de pensar que serão as nossas obras que nos vão salvar, mesmo aqui na terra.

Para um cristão a análise de qualquer realidade não é completa se não for feita tendo também Cristo como referência. Só tendo Cristo como referência consegues compreender a verdade de um acontecimento. Não é através de uma ideologia, mas sim através de uma Pessoa, que se torna modelo do teu agir e pensar.

Como não recordar o episódio do Evangelho Mc 4, 35-41,  do barco agitado pelas ondas, o pânico dos discípulos e a repreensão: ”Porque tendes medo? Ainda não tendes fé?” Não sei se as várias estratégias ocidentais e internacionais podem ajudar. Talvez sim. Devem-se encontrar urgentemente perspectivas políticas. Mas não serão elas a salvar o cristianismo no Médio Oriente. A barca de Pedro andará sempre agitada e haverá sempre alguém lá dentro a dizer o que fazer. Mas só o Seu comandante, o Senhor, poderá acalmar a tempestade.

A nossa presença será salva pelos mais pequenos, pelos que se comprometem com coragem e desafiam a morte ,amando o irmão gratuitamente, até ao ponto de se deixar trespassar. Sendo cristãos até ao fim.

As imagens que nos mostram do Médio Oriente são oprimentes e desconsoladoras; é legítimo interrogarmo-nos sobre o que devemos ou podemos fazer , mas é obrigatório  empenharmo-nos concretamente para pôr fim a esta tragédia que diz respeito a todos. Porém o nosso agir tem que ser acompanhado pela convicção  profunda e serena de que, para ter fruto, deve estar unido a Cristo.

“Toda a solidariedade e união com os homens dá seguimento à solidariedade de Jesus com toda a humanidade, mas se esta acabasse, seria prova da falência suprema porque ela consuma-se e torna-se perfeita na morte na cruz. A morte na cruz é o caminho para a ressurreição e a ressurreição já não é a solidariedade de Jesus com os homens, mas sim a união dos homens com Jesus ressuscitado.

“Toda a solidariedade com os homens, toda a união com eles é o meio e o caminho necessários para a união dos homens com Deus; se ela não levar a esta união com Deus, então é vã, não salva, faz-nos unicamente participantes da dor, da pobreza, da morte: não nos dá a vida”: Divo Barsotti. “A espera. Diário 1973-1975.

Quero concluir com outras duas imagens de alguns meses atras, também ligadas ao Médio Oriente, mesmo que pareçam de há anos, completamente diferentes do que vemos hoje.

A primeira diz respeito ao encontro entre o Patriarca Bartolomeu e o Papa Francisco no Santo Sepulcro, em Jerusalém. Aquela basílica, que guarda a memória da morte e ressurreição de Cristo, mas também das tristes divisões entre cristãos, teve pele primeira vez da sua história o encontro entre duas realidades, a ortodoxa e a católica, que durante anos se combateram. É verdade que as divisões persistem e ainda hoje depois daquele momento, parece ter voltado tudo a ser como dantes. Mas, mesmo que quiséssemos, não é como dantes. Aqueles sinais são poderosos e comprometem os que os propõem. As duas igrejas comprometeram-se a confrontar-se de maneira positiva. O caminho a fazer é ainda longo, mas foi aberto e delineado.

A segunda imagem está ligada ao momento de oração no Vaticano, desejado pelo Papa Francisco e pelo Patriarca Bartolomeu, com os presidentes dos dois países inimigos de sempre, Israel e Palestina.

É verdade, também neste caso, que politicamente os dois presidentes não podiam nem podem fazer muito, e o Papa ainda menos. Imediatamente a seguir desencadeou-se uma violência inaudita e inexplicável entre os dois intervenientes, que parece quase querer negar aquele momento histórico. Mas também neste caso os sinais foram dados e o caminho indicado. As imagens de morte que temos visto até agora, os bombardeamentos, os mísseis, mas sobretudo o ódio profundo que é alimentado com esta violência, não devem ser separadas daquelas dos dois presidentes a rezar juntos pela paz. Elas dizem-nos que é possível. Ajudam-nos a erguer o olhar. Aquecem-nos o coração.

O Médio Oriente é também isto.

No Médio Oriente precisamos de tudo: de ajuda financeira, militar, politica, de mediadores e de apoios… mas sobretudo precisamos de acreditar que ainda é possível sermos amigos. Os testemunhos dizem-nos que, apesar de tudo, e graças aos mais pequenos, esta força ainda está viva.

+ Pierbattista

(Tradução de Eugénia Montera)

domingo, 16 de outubro de 2016

Terra Santa News - 14/10/2016



Yom Kipur: o dia da expiação



Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre esta terra?»

XXIX Domingo do tempo ordinário, ano C
16 de Outubro de 2016


EVANGELHO – Lc 18,1-8

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

Naquele tempo,
Jesus disse aos seus discípulos uma parábola
sobre a necessidade de orar sempre sem desanimar:
«Em certa cidade vivia um juiz
que não temia a Deus nem respeitava os homens.
Havia naquela cidade uma viúva que vinha ter com ele e lhe dizia:
‘Faz-me justiça contra o meu adversário’.
Durante muito tempo ele não quis atendê-la.
Mas depois disse consigo:
‘É certo que eu não temo a Deus nem respeito os homens;
mas, porque esta viúva me importuna, vou fazer-lhe justiça,
para que não venha incomodar-me indefinidamente’».
E o Senhor acrescentou:
«Escutai o que diz o juiz iníquo!…
E Deus não havia de fazer justiça aos seus eleitos,
que por Ele clamam dia e noite, e iria fazê-los esperar muito tempo?
Eu vos digo que lhes fará justiça bem depressa.
Mas quando voltar o Filho do homem, encontrará fé sobre esta terra?»






Meditação de Mons. Pizzaballa

O primeiro versículo do extracto que ouvimos aponta para o contexto do conjunto do relato: nós ficamos a saber pelo Evangelista que Jesus conta uma parábola sobre a oração, ou antes sobre a necessidade de rezar sempre, sem desencorajar (Lc. 18,1).

Antes de nos debruçarmos sobre a parábola, detenhamo-nos nos elementos do contexto, que nos dizem alguma coisa de importante a propósito da oração.

O primeiro elemento é o termo “necessidade”: rezar, para Jesus é algo de necessário uma necessidade e não uma opção. É alguma coisa que faz parte da vida, e não algo de assessório que possa existir ou não sem que a vida seja mudada. Com efeito, poder-se-ia dizer que a oração é uma questão de vida ou de morte como o revela a primeira leitura (Ex. 17, 8-13) que conta como a oração ajuda na luta do povo conta os Amalequi: se Moisés rezar o povo vence, mas se Moisés deixar de rezar o povo sucumbe.

Em seguida nós devemos sempre rezar: se a oração é a nossa vida, então devemos rezar “sempre”. A oração não é uma actividade com um princípio e um fim: mas é como a respiração da nossa vida, nunca se interrompe.

Por fim, devemos rezar “sem nos desencorajarmos”: o que indica que também existe a possibilidade de nos cansarmos, que a nossa vida e a nossa relação com o Senhor tenha momentos de cansaço, de aridez; conhecemos momentos de dúvida e de interrogação principalmente quando parece que o Senhor não nos ouve, não intervêm.

Após esta introdução, começa o relato da parábola que não vai desenvolver senão uma parte dos temas abordados na introdução, mas que abre novos horizontes e que desloca a questão. No fim, com efeito, a questão não é mais oração, mas a fé: “ Quando o filho do homem vier, encontrará fé na Terra?” (Lc. 18, 8).

No centro da parábola está, em seguida, o tema da justiça: encontramos quatro vezes a expressão “fazer justiça” através da qual a oração é considerada com o nosso recurso a Deus para que ele intervinha nas nossas vidas e faça justiça.

Encontramos aqui um tema que está muitas vezes presente nos Salmos nos quais o coração ferido do salmista levanta a sua invocação a Deus: “Faz-me justiça, oh Deus”. (Salmos 26,1; 43,…).

Aquele que pede a Deus que lhe seja feita justiça não pode ser senão uma vítima de abusos: na nossa parábola, trata-se de uma viúva, que alguém que, pela sua condição, não tem ninguém que a proteja encontrando-se assim na impossibilidade de ver os seus direitos garantidos.

No Antigo Testamento, as viúvas, os órfãos e os estrangeiros eram um grupo social particularmente exposto aos abusos e às injustiças tendo assim, mais do que nenhum outro, necessidade de uma atenção especial por parte de Deus. E o próprio Deus faz-se protector deles.

A viúva torna-se o símbolo de todos os que, na história, sofrem injustamente e com quem ninguém se preocupa. São tão numerosos.

Para mostrar como o Pai toma conta deles, Jesus recorre a um juiz desonesto, que se não preocupa com os problemas da viúva: “ele não temia a Deus e não respeitava os homens” (Lc. 18, 2.4). Este último decide finalmente intervir não porque tenha sido levado pela compaixão, mas simplesmente por oportunismo, para que o deixem em paz. Jesus diz então que se este juiz acabou por intervir, quanto maior e mais rápida será a intervenção do nosso Pai, que no seu coração só quer o nosso bem.

O problema não está aí, diz Jesus, pois a intervenção no relato é algo considerado como certo. Do que se não tem a certeza, diz o Senhor, é que tenhamos a fé necessária para O reconhecer e Lhe darmos graças. E, aqui, voltamos ao tema de domingo passado, a fé: a fé, pequena mas tenaz como um grão de mostarda que permitiu ao leproso curado reconhecer a salvação que entrou na sua vida. A fé que hoje nos permite continuar a acreditar que Deus não nos abandona e que, em dado momento, intervirá e fará justiça.

Fazer justiça – ou seja proteger o sentido da vida e do relato, ou ainda cumprir o Seu desejo de amor – pertence ao Pai, mas a sua realização é da nossa responsabilidade.

E a oração é o espaço que nos permite continuar a acreditar, a ter uma relação de confiança Nele, mesmo quando o mistério da injustiça põe à prova a nossa fé.
Nesta fase, é necessário dar um passo porque pensamos que a justiça divina é parecida com a justiça humana, mas liberta de qualquer erros ou ambiguidade possível. Mas para Deus a justiça é algo de completamente diferente.

Por duas vezes, a expressão justiça aparece no Evangelho de Lucas e refere-se a Jesus. As duas encontram-se no relato da paixão. A primeira quando o bom ladrão (Lc. 23, 39-43) reconhece que Jesus é um justo e quando diz que ele próprio e o outro ladrão são condenados à morte justamente, enquanto Jesus nada fez de mal.

A segunda, alguns versículos mais à frente, (v. 47) quando vemos o centurião pagão que reconhece a justiça de Deus, isto depois de ter visto a forma como Jesus encarou a morte, ele que sofreu de injustiça mais do que qualquer outra pessoa.

Poderíamos dizer que pedir a Deus que faça justiça significa também que lhe pedimos que saibamos viver a nossa vida como Jesus na cruz; o que não significa sofremos a injustiça, mas vencê-la na oferta de um amor maior; escolhendo continuar a ser “justo”, tomando sobre si a injustiça para a transformar em bem.

É assim que o nosso pedido muda e que muda também a nossa oração. E esta transformação é a única condição para que a nossa oração seja infatigável: a oração só resiste se nós nos deixarmos transformar, se nós aceitarmos mudar, crescer. Ela não muda a realidade, mas ela aperfeiçoa a nossa prece, tornando-a cada vez mais e mais em consonância com o pensamento de Deus.

                                                                                                + Pierbattista


(In, www.lpj.org)