A missão dinâmica da Terra Santa
Numa entrevista dada à Salt and Light Television, a 3 de Março de 2016, o Padre David Neuhaus SJ, Vigário Patriarcal para os católicos de expressão hebraica, falou de novo da sua vocação e da particular missão da Terra Santa e da Igreja de Jerusalém.
Com o Padre David M. Neuhaus, SJ
Pelo Padre Thomas B. Rosica, CSB
Nossa Senhora de Jerusalém
A missão dinâmica da Terra Santa
Numa entrevista dada à Salt and Light Television, a
3 de Março de 2016, o Padre David
Neuhaus SJ, Vigário Patriarcal para os católicos de expressão hebraica,
falou de novo da sua vocação e da particular missão da Terra Santa e da Igreja
de Jerusalém.
Com o Padre David M. Neuhaus, SJ
Pelo Padre Thomas B. Rosica, CSB
Nossa Senhora de Jerusalém
Thomas Rosica (PTR): Obrigado, Padre David Neuhaus,
pelo tempo que nos concedeu durante a sua visita a Jerusalém, apesar da sua agenda
tão sobrecarregada. Benvindo!
Padre
David Neuhaus (PDN). Obrigado, é para mim uma honra.
PTR – É jesuíta e Vigário Patriarcal para os
católicos de expressão hebraica e muito implicado na Comissão para a Pastoral
dos Migrantes do Patriarcado Latino. É também membro da Companhia de Jesus,
recentemente ordenado padre, mas também com sangue judeu. Assim sendo,
comecemos pelo princípio: fale-me de David Neuhaus e da sua experiência na
África do Su, no seio de uma família judaica.
PDN:
Cresci numa família de migrantes. De migrantes judeus. A minha família fugiu da
Alemanha Nazi nos anos 30 e encontrou abrigo numa comunidade judaica muito
unida na África do Sul, onde nasci em 1962 e onde fiz toda a minha escolaridade
no sistema escolar judaico local. É um ensino do qual a diáspora judaica sempre
se orgulhou, e com razão. Aos 15 anos os meus pais decidiram mandar-me para
Israel. O situação na África do Sul era, nessa época, bastante tensa (estamos a
falar dos anos 1976/77), eu estava inscrito numa escola judaica que propunha
aos alunos partirem para Israel, e eu parti, chorando e berrando porque não
queria ir.
PTR: Onde fez o seu Bar Mitzvah? Na África do Sul ou em Israel?
PDN: Na
África do Sul, dois anos antes da minha chegada aqui.
PTR: O que representava Israel para o jovem judeu
que então era?
PDN: Penso
que representava qualquer coisa de muito judeu. Mas esta animada cidade, para
mim, parecia ser verdadeiramente o centro do mundo. Não acreditava em Deus, rezávamos
unicamente por dever. Estudava numa escola judaica que propunha em matéria de
religião o que muitas escolas católicas propõem. Mas a questão de Deus não me
interessava. O que eu sentia era a energia palpitante desta cidade que eu
queria explorar. Parti assim à descoberta de Jerusalém. Tinham-nos mostrados
muitos sítios da cidade, mas eram os locais que não nos mostravam que eu achava
absolutamente fascinantes.
PTR: Que lugares?
PDN: Os
bairros cristãos, os bairros muçulmanos, os bairros árabes. Tudo o que não me
tinham mostrado fascinava-me. Além disso, por razões de que já me não lembro,
estava fascinado pela história russa de então, e para mim foi um ponto de honra
visitar os mosteiros russos. Na realidade, naquela época, somente com 15 anos,
eu queria escrever um livro sobre uma mulher canonizada pela Igreja Russa:
Santa Elizabeth Fedorovna, irmã da última Imperatriz russa. É uma mulher que
sempre me fascinou. Está enterrada em Jerusalém depois de uma vida
incrivelmente dramática.
Foi então
que descobri que uma parente afastada de Santa Elizabeth, Madre Tamara, era a
Madre Abadessa de um mosteiro do Monte das Oliveiras. Fugi então do internato,
um sábado à tarde, um dia de Shabbat, para ir a esse mosteiro tentar um
encontro com a Madre Tamara, que estava em coma. A minha tentativa não foi
infelizmente coroada de sucesso, mas uma religiosa que velava a Madre Tamara
disse-me que havia uma outra irmã que tinha conhecido Elizabeht Fedorovna: “vai
vê-la” disse-me nesse dia. Sai a correr para ir ver a Irmã Barbara, uma
religiosa ortodoxa russa de 89 anos, paralisada há cerca de 20 anos e instalada
num pequeno quarto. A receita perfeita para uma depressão. Apesar de tudo, fui
vê-la, falar com ela. Passámos três boas horas juntos. Falava com muito
entusiasmo de Elizabeth Federovna, da família Romanof, da vida durante o
Império russo…Eu estava totalmente encantado, com num sonho. Agradeci-lhe e
voltei para o internato. Foi durante o caminho de volta que percebi uma coisa
que pode parecer totalmente ridícula: acabava de conhecer a pessoa mais feliz
em toda a minha vida, e pensei que isso era impossível, com quase noventa anos,
religiosa, paralisada….não era possível!
Voltei a
saltar o muro, no sábado seguinte, para me encontrar de novo a Irmã Bárbara.
Mal a vi disse-lhe: “Irmã Bárbara, não estou aqui para falar nem de Santa
Elizabeth nem da Rússia.” Queria-lhe fazer uma pergunta: porque está sempre tão
alegre?”. Olhou para mim um pouco constrangida porque, calculo que soubesse que
eu era judeu. Insisti: “quero mesmo saber”! Por fim ela diz-me: está bem vou-te
dizer. Estou apaixonada”. Pensei que era louca, o que explicaria a sua
resposta. Foi então que me começou a falar daquele que amava. Ele estava ali.
Nunca duvidei da Sua presença por causa da felicidade verdadeira de que era
testemunha a Irmã Bárbara. Esperava então que no decurso das semanas seguintes
a encontraria, a força da alegria desta mulher paralisada e no entanto tão
feliz foi o elemento que tudo desencadeou. Então pensei o que devo e agora que
devo fazer? Aqui sou ateu, judeu e orgulhoso de o ser, orgulhoso de ser um ateu
de 15 anos e, no entanto, acabo de encontrar Jesus Cristo…
PTR: Em Jerusalém?
PDN: Em
Jerusalém. Passei então os meses seguintes a exteriorizar tudo isto. Primeiro
tive uma conversa muito franca com os meus pais …os meus pais, judeus pouco
praticantes, mas muito judeus, tendo fugido da Alemanha nazi como o fizeram
também as suas famílias. Quando lhes disse “Pai, Mãe, mandaram-me para Israel e
sabem o que aconteceu? Eu acredito em Deus que tem um filho chamado Jesus
Cristo”, a sua primeira reacção foi: como te podes juntar aos que nos fizeram
tanto mal?” Fiquei sem reacção durante um momento. Não tinha pensado nisso. Eu
falo-lhes de Jesus e eles dizem-me “mas tu és judeu”. Fiz então uma promessa
aos meus pais. Disse-lhes: “sabem que mais, vamo-nos descontrair. Prometo-vos
fazer uma pausa de dez anos e se continuar assim, quando tiver 25 anos, então
os pais aceitam” Olharam para mim, sorriram um para outro e reponderam “de
acordo”. Pensavam certamente que me tornaria budista ou muçulmano no futuro. E
foi assim que resolvemos a crise.
Durante os
dez anos seguintes, não só tentei conhecer melhor Jesus Cristo, mas também
tentar obter respostas para a questão dos meus pais. Como podiam os discípulos
de Cristo portarem-se desta maneira? Os que pretendem ser discípulos de Cristo,
claro…
Na Igreja
russa ortodoxa não encontrava resposta à minha pergunta. Pelo menos uma
resposta que me satisfizesse. Uma reposta que me davam era: “David, o mundo é
um lugar mau, muitas coisas más acontecem. Se queres estar em segurança, fica
aqui, reza, fica na liturgia”. Tenho a certeza que já sabe, mas a liturgia
russa é uma antevisão do céu, a liturgia bizantina representa com efeito o céu.
Mas respondi: impossível, não posso fazer isso. Já tinha visto, na minha curta experiência,
irmãos que viviam no mundo: irradiavam felicidade, havia também pessoas felizes
fora da liturgia. Não podia aceitar essa separação.
Continuei
à procura, a examinar a questão, e houve dois acontecimentos que foram
determinantes. O primeiro foi o meu encontro com o Papa João XXIII.
Naturalmente não foi um encontro pessoal, mas comecei a ler sobre ele, depois a
ler os seus escritos e penso que, a num certo nível a dúvida dos meus pais era
também a sua dúvida. Ele meditava e reflectia nesta questão. O segundo
acontecimento foi o encontro com pessoas que tinham a mesma dúvida: a Companhia
de Jesus. E foi assim que lentamente, mas com segurança me fui aproximando da
óptica da Igreja Católica. Os anos iam passando e eu respeitava o período de
dez anos de reflexão, de meditação e de discernimento. Palavras de jesuíta
antes de me tornar jesuíta.
Quando o
tempo de reflexão terminou, os meus pais estavam prontos. Prontos para
aceitarem que a ovelha negra da família pudesse ser baptizada. Aceitaram mesmo
que fosse padre e me tornasse religioso. Foi uma bela aventura que uniu ainda
mais a nossa família.
PTR: A minha primeira reacção estava certa: “Meu
Deus…Uuau”!
PDN:
Deixe-me que lhe diga que foi um percurso particularmente interessante, tanto
mais que ao fim destes dez anos passados a descobrir a comunidade católica de
expressão hebraica da qual me tornei um membro activo, tenho actualmente a meu
cargo essa mesma comunidade. Insisto para que nela se conserve a mesma política
com que eu me confrontei quando cheguei e disse “eh! amigos, acredito em Deus e
quero ser baptizado”. Nessa altura responderam-me: “és completamente doido, e
demasiado impaciente. Não se baptizam as pessoas assim. Antes é preciso
aprender, estudar, enraizar-se na comunidade, pensar pelo menos dois anos”. Ao
que respondi: “ok, assim tenho pelo menos dois anos para sair do armário”.
Ninguém sabia então o que se passava no mais profundo do meu coração além dos
meus pais e alguns amigos bem escolhidos. Fui finalmente baptizado depois de
dois anos de espera. Uma irlandesa maravilhosa, a Irmã de S. José da Aparição,
foi a minha madrinha.
PTR: Que era minha amiga, a Irmã Catherine Casey…
PDN: Sim,
a sua amiga, Irmã Catherine Casey, acompanhou-me durante muitos anos antes de
ser baptizado. Foi um jesuíta que me baptizou, era então capelão da comunidade
de expressão hebraica de Jerusalém. No dia do meu baptizado disse-lhe: “Padre,
eu quero ser jesuíta”. Olhou para mim e disse-me: porquê querer ir tão
depressa? Nos jesuítas não aceitamos recém-baptizados. Tem de esperar três
anos”.
Ok. Fiz um
doutoramento em ciências políticas na Universidade Hebraica. Foram três
maravilhosos anos de investigação e estudo para conhecer cada vez melhor a
Igreja local, uma vez que uma parte da minha investigação era-lhe consagrada.
Por fim, fui autorizado a postular na Companhia de Jesus.
PTR: De que província depende?
PDN: Isso
é também uma história interessante! Quando entrei disse: “Eh! amigos, quero
fazer parte desta província (ou seja, da Província do Médio Oriente), quero
ficar aqui, a minha vida é aqui”
PTR: Então não depende da África do Sul?
PDN: Não,
nunca conheci a Igreja da África do Sul. Mas quando fiz o meu pedido ao
Provincial, um egípcio muito sensato, que vivia em Beirute disse-me: “David,
não o podemos acolher nesta província. Somos egípcios, sírios, libaneses e o
David é um judeu israelita. Estamos em guerra, como o podemos acolher entre
nós?” Apesar da minha decepção, estava de acordo com ele, a sua decisão era
perfeitamente lógica. Aconselhou-me então que fosse à província de Nova
Inglaterra, em Boston, que tem laços muito fortes com o Médio Oriente. Fiquei
muito perturbado com tudo isto. Entrei em contacto com a Província de Nova
Inglaterra que me aceitou. No momento da despedida o Provincial do Médio Oriente
disse-me: “não devemos fazer profecias, o seu lugar é entre nós, vá para Nova
Inglaterra adquirir experiência e volte para nos vermos”. Foi assim que no meu
segundo ano de noviciado, fui ao Egipto passar uns tempos maravilhosos com o
mestre dos noviços que foi, mais tarde, Provincial do Médio Oriente. Éramos
quatro noviços eu, judeu israelita, dois egípcios e um sírio. Os meus três
co-noviços estão, hoje, todos casados em França e eu fui o único do grupo que
ficou na Companhia de Jesus. Mas, na realidade, esta experiência de viver e de
estar totalmente integrado na Igreja local, a Igreja palestiniana de expressão
árabe, a maior Igreja do Médio Oriente, conservando no entanto uma identidade
de judeu de língua hebraica, foi simplesmente incrível.
PTR: Que sente dentro de si, na sua qualidade de
judeu israelita, nascido na África do Sul, a viver no meio desta tensão, neste
ciclone, se preferir?
PDN:
Vivo-o como uma graça. Uma graça maravilhosa. Sobretudo porque penso qua a não
vivo sozinho. É toda a Igreja que é chamada a vivê-la. E, verdade seja dita,
não temos de viver no meio, mas totalmente inseridos nesta duas sociedades que
se dilaceram, a sociedade israelita e a sociedade palestiniana. Tudo isto é uma
graça especial concedida à Igreja da Terra Santa profundamente alicerçada
nestas duas realidades. Mais uma vez digo, não gosto dos que afirmam que a
Igreja deve estar no meio. O nosso lugar não é ao meio, o nosso lugar é ser o
fermento e a semente, e aqui vejo a Igreja profundamente enraizada desde há séculos,
desde o início. Os primeiros árabes que acreditaram em Cristo estão mencionados
nos Actos dos Apóstolos e, assim, podemos dizer que a Igreja de língua árabe
pode-se ver desde há dois mil anos, tal como a Igreja judaica de língua
aramaica. Quando olhamos para a nossa época, vemos que Deus, com o seu habitual
sentido de humor, enraizou profundamente sua Igreja nas duas sociedades rivais,
o que faz de nós testemunhas de uma realidade. Esta realidade é que somos uma
Igreja totalmente estrangeira ao mundo no qual vivemos.
PTR: Nunca deixou de pensar que a experiência que
vive é a própria experiencia do Pentecostes com os Medos, os Elamitas e os
Partas e com este grupo ou aquele, com os judeus e os não judeus…
PDN: É o
que somos chamados a viver…
PTR: E é o que vive o P. Neuhaus…
PDN: Bem,
penso que não é unicamente David Neuhaus, penso que é toda a Igreja da Terra
Santa. Esta Igreja que toma cada vez mais consciência do que ela é, como foi
formada por Deus, porque temos esta pequena presença católica de língua
hebraica, que no nosso país temos uma forte presença institucional árabe
palestiniana. Sempre tivemos uma população de expatriados, mas agora há uma
enorme população de migrantes que acaba de se instalar principalmente do lado
judeu. Se pudermos compreender totalmente o que é a Igreja, compreenderemos
perfeitamente o mistério do Pentecostes. Há uma missão escatológica de
Jerusalém que desce como uma esposa. Penso que é extremamente importante para a
vocação da Igreja falar esta língua, que é a língua do Reino. É a língua do que
parece impossível mas que é criada cada vez que se celebra a Eucaristia. Agora,
tomei plenamente consciência de tudo isto. Há um ano e meio, tivemos uma guerra
terrível aqui, mais uma vez, nada de novo. Todos os dias pensava em Gaza e na
nossa paróquia da Sagrada Família, na Faixa de Gaza, onde as pessoas viviam com
medo, os israelitas bombardeavam Gaza sem parar, arrasando zonas inteiras da
cidade. E na paróquia de Gaza, as pessoas celebravam a Eucaristia todos os
dias. A alguns quilómetros, está a cidade de Beer Sheva, temos aí uma pequena
paróquia, a paróquia de Nosso Pai Abraão. A Eucaristia era aí celebrada todos
os dias, em hebreu, muitas vezes nos abrigos por causa dos roquetes lançados
pelo Hamas. Que realidade criou esta situação? Era só um ritual ou é a Igreja
que todos os dias, dá um falso testemunho do que atravessa o país?
Penso que
é necessário reflectir muito neste ponto.
Durante
muitos anos, tivemos um Patriarca fantástico, que reflectiu a fundo nesta
questão e que conduziu a Igreja da Terra Santa para a frente, tendo sempre a
ideia de que ela é um sinal escatológico do que este país é chamado a ser. Para
lá de todas as hostilidades e de todas as guerras, os cristãos são testemunho
do que parece ser impossível, mas nós sabemos no entanto ser possível porque
esta é a lógica do Reino.
PTR: Estou contente por descobrir o papel que teve
na sua vida, tal como na minha, Mons. Michel Sabbah. Qual foi a sua influência,
aqui em Jerusalém desde1988? O que o impressionou e lhe deu este sentimento de
“Ecclesia”, este sentido universal da missão da Igreja?
PDN: Duas
coisas e duas coisas que são muito claras. Há com certeza muito mais a dizer
sobre ele, a sua humildade, a sua prudência, a sua capacidade de ser um líder.
Mas referir-me-ei somente a duas. Primeira é a sua tomada de consciência de que
não podemos falar a linguagem dos políticos, da rua, ou mesmo do nosso sistema
educativo na Palestina e em Israel. Temos necessidade de desenvolver uma
linguagem que seja fiel ao que somos enquanto cristãos o que significa que
palavras que são constantemente usadas na rua se tornam palavras que não
devemos usar ou que só devemos usar de forma muito crítica. Palavras como
“inimigos, ódio, vingança”. São palavras que para nós, enquanto cristãos, não
podem ter lugar na nossa linguagem. Está bem, outras palavras como “perdão,
arrependimento, amor” são palavras que devemos levar a sério. Assim, a língua é
um sinal, temos uma forma particular de falar, é a língua do Reino: o Reino
está muito presente quando celebramos a Eucaristia, mas ausente enquanto o
mundo não for eucarístico.
O segundo
ponto é o facto de criar instituições que falem esta linguagem e o de fazer
tomar consciência às instituições já existentes de qual é o nosso dever. Ao
construir a Igreja devem-se abater os muros. Pensamos construir uma Igreja e
levantamos muros e, nas nossas comunidades cristãs onde há tantos medos,
podemos compreender que esta atitude é humana e natural. Estes muros que se
levantam quando temos medo, são os muros que destroem a Igreja em vez de a
construírem. Em resumo, a insistência do Patriarca Sabbah para estar em
permanente diálogo com todos os parceiros da nossa sociedade que partilhem os
nossos valores quer sejam judeus ou muçulmanos.
Fiz parte,
há alguns anos , de uma comissão dinâmica para o diálogo com o povo judeu e
para se ter uma visão crítica sobre o significado desse diálogo no contexto
actual do país. Nós compreendemos o que isto significa no actual contexto da
Europa. Compreendo que os judeus que viviam marginalizados sofreram porque era
uma pequena minoria. Esta não é a realidade em Israel. Os judeus são uma
maioria dominante. Que significa isto no diálogo entre a Igreja e Israel?
Significa algo de totalmente diferente. Portanto temos nós de pensar neste
diálogo de uma forma criativa, na formulação do discurso como reforço das
instituições e isto é uma herança que nos deixou o Patriarca Michel Sabbah
temos de continuar a trabalhar nesse sentido.
PTR: Quando muitos olham para a Terra Santa, e mais
particularmente para a Igreja de Jerusalém, para o Patriarcado, muitos não
percebem que há também uma comunidade dinâmica de católicos de expressão
hebraica da qual é hoje o Vigário. Qual é o objectivo desta comunidade? Quem
são os católicos que dela fazem parte? Simplesmente judeus convertidos em
Israel com uma experiência similar à vossa? Expatriados que vêem aqui uma boa
razão para falar hebreu e uma liturgia nessa língua? Quem pode compreender essa
comunidade.
PDN: Somos
uma comunidade muito diversificada, temos sete paróquias de língua hebraica em
Israel e uma comunidade diversa. Vivemos num lugar histórico que tentamos
sempre honrar, a nossa comunidade cristã estabeleceu-se depois do Holocausto,
depois da Shoah. É uma comunidade profundamente solidária com o povo judeu
depois da Shoah. Somos profundamente marcados por um enorme reconhecimento
pelas nossas raízes judaicas. Somos uma comunidade de pioneiros do que será
mais tarde ensinado pela Nova Aetate. A nossa comunidade foi fundada dez anos
antes da publicação de Nova Aetate. Alguns dos nossos fundadores, como o Padre
Bruno, estavam entre os visionários que mais tarde puderam explicar a visão de Nostra
Aetate. A nossa comunidade foi fundada por alguns judeus convertidos, nunca
tivemos muitos judeus convertidos, cristãos membros de famílias judaicas que
encontraram um lar em Israel depois da Shoah, ou quando um judeu deixou a
Polónia, a Hungria ou a Roménia com a sua mulher católica, muitas vezes
fervorosa. Vieram para Israel, integraram-se na sociedade judaica começaram a
falar hebreu, ao princípio mal, mas os seus filhos já o falavam
perfeitamente….Tinham necessidade de uma Igreja, os Justos entre as Nações, os
que tinham salvado judeus durante a Shoah e que tinham igualmente imigrado para
Israel. Havia então um dinamismo, e uma vitalidade nestes primeiros tempos em
que a comunidade contava, calcula-se, mas não se sabe ao certo, com milhares de
membros, uma igreja escondida por causa da Igreja, porque se alguém procurasse
uma Igreja em Israel encontrava uma igreja de língua árabe maioritariamente
palestiniana. Os primeiros membros da nossa comunidade ficavam na sombra, não
queriam ser vedetas, então eram discretos. O que aconteceu foi que, com o
correr dos anos, a nossa comunidade transformou-se. Muitos dos seus jovens
foram assimilados pela comunidade judaica laica. A comunidade foi-se tornando
mais pequena, mas teve uma renovação nos anos 90. Primeiro com a chegada maciça
de russos, centenas de milhares dos quais eram cristãos. Centenas de milhares
que não eram Judeus, eram sobretudo cristãos ortodoxos maioritariamente russos.
Mas a nossa comunidade teve assim um impulso novo com todas estas famílias que
se integraram na Igreja Católica.
Mas o que
transformou verdadeiramente a vida da Igreja na sociedade judaica israelita de
expressão hebraica, foi o facto de Israel se ter tornado um país rico. Um país
rico como os países da Europa, o Canadá, os Estados Unidos ou a Austrália. Os
países ricos atraem enormes migrações: migrações de mão-de-obra, de pessoas que
vêm à procura de trabalho, de pobres, dos que fogem de conflitos e da fome,
refugiados e, neste momento, o número de migrantes talvez ultrapasse o número
de cidadãos cristãos israelitas. São pessoas que vivem na sociedade judaica de
língua hebraica. Eles não falam hebreu, não podem rezar em hebreu. Eles rezam
em Tagalog, Concanim, Malaio, Tigrinia, Cingalês e em muitas outras línguas de
mundo em vias de desenvolvimento. Mas os seus filhos, na sua maioria nascidos
aqui, falam hebreu perfeitamente, estão nas escolas, nos jardins infantis,
seguem a escolaridade normal e não sabemos o que o futuro lhes reserva. Alguns
estão já no país há duas gerações. Conheço mesmo um caso de três gerações
vivendo à margem da sociedade israelita de língua hebraica. Ninguém os vê como
judeus. Eles estão dentro, de uma certa forma, socialmente integrados, mas não
sabemos o que será o seu futuro, mas temos de estar ao seu serviço. E insisto,
isto é parte integrante da missão da Igreja na Terra Santa, reconhecendo que
não é uma Igreja condenada a sobreviver atrás de muros, mas uma Igreja que tem
uma missão, uma missão também junto dos mais pobres dos pobres da Terra Santa
de hoje – os trabalhadores migrantes, os explorados e abusados como aliás no
resto do mundo.
PTR: Isto faz também parte do vosso ministério,
esta comissão que se ocupa desta população de migrantes, entres os grupos que
aqui vivem, e esses grandes grupos, quais são? A quem é destinado este outro
aspecto do vosso ministério pastoral?
PDN: Se
falámos de cristãos em geral e não somente de católicos, referimo-nos agora às
dezenas de milhares de africanos, de dezenas e milhares de asiáticos, e de
dezenas de milhares de europeus do Leste. Quando falamos em católicos a
população é prioritariamente asiática: filipinos, indianos, e do Sri Lanka.
PTR: E estão aqui com trabalhadores domésticos?
PDN: No
meio médico, muitos trabalham como enfermeiros, há trabalhadores não
especializados e em trabalhos pesados que os ricos não querem fazer. Assim
temos de novo uma comunidade muito dinâmica, que não é necessariamente de
língua hebraica, mas vivendo integralmente na sociedade de língua hebraica. O
desafio é, uma vez mais, o de estar em comunhão com a Igreja de expressão
árabe, para que possamos sempre reconhecer que somos um sinal desta união que
ainda não existe.
PTR – Permita-me voltar atrás, ao seu desejo de
entrar para a Companhia de Jesus, porque os jesuítas se questionam, põem
grandes questões ou sérias questões, quais são então estas questões que vive
hoje na sua extraordinária vocação?
PDN: Bem,
penso que uma das questões predominantes. É uma questão bíblica que remonta até
à interrogação que se repete, interrogando-nos constantemente sobre quem somos,
qual é a nossa identidade, qual deveria ser a nossa missão? Poderemos então
dizer que a grande interrogação, uma interrogação que foi sempre fundamental na
minha vida, é: quem é este Homem?” “Que fará ele?” Mas penso que enquanto
Igreja aqui, não devemos estar sempre a reflectir sobre “o que devemos fazer? Que
devemos fazer?” Parece totalmente claro que temos de sobreviver. A qualquer
preço, os nossos cristãos deixam o país, estão aterrorizados, devemos
sobreviver, deixemo-nos de levantar muros. E também aí a mesma questão se põe,
mas que devemos fazer? É verdadeiramente necessário escondermo-nos atrás de
muros? Deveríamos ficar em ghettos? Ou devemos seguir este homem – ridículo,
impossível, inaceitável, estúpido! – Este Homem que dizia constantemente aos
seus discípulos – temos de sair, temos de ir ao outro lado, temos de estar
sempre em movimento. Esta missão dinâmica de Jesus é verdadeiramente uma fonte
muito importante de reflexão, penso eu, para a nossa Igreja.
PTR: Padre David Neuhaus, quero agradecer-lhe por
não tornar este muros ainda maiores e por construir pontes em todas as direcções
possíveis. Asseguro-lhe que não será esta a última vez que Salt and Light
Television estará consigo. Obrigado, toda
raba, shukran iktir.
PDN:
Obrigado, agradeço-lhe muito.
SALT and
Light Television
(http://saltandlighttv.org/witness/?f=fr-david-neuhaus)


