quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Status Quo


O “Status quo”, ou ”Statu quo” como habitualmente é chamado na Terra Santa e em muitas publicações, refere-se à situação em que se encontram as comunidades cristãs da Terra Santa nas suas relações com os governos das religiões.

Especificamente o “Status quo” indica a situação em que se deparam essas comunidades nos Santuários da Terra Santa. Situação que diz respeito tanto à propriedade quanto aos próprios direitos e também os direitos simultâneos com os outros ritos: no Santo Sepulcro, na Basílica da Natividade em Belém e no Túmulo de Maria em Jerusalém.



A vida nos Santuários é inseparável dos regimes políticos da Terra Santa, a situação de hoje é fruto de um lento processo que acabou por se consolidar. Durante os séculos XVII e XVIII, os gregos ortodoxos e católicos estiveram em contínua controvérsia em relação a alguns Santuários (Santo Sepulcro, Túmulo de Maria e Belém). Foi um período de “lutas fraticídias e intervenções políticas”. Através destes dolorosos acontecimentos chegou-se a uma situação ratificada num acordo assinado a 8 de Fevereiro de 1852 e designado com o termo de “Status quo”.

O “Status quo” nos Santuários da Terra Santa, especialmente no Santo Sepulcro, determina os sujeitos da propriedade dos Lugares Santos. Determinando ainda, de forma concreta, os espaços dentro do Santuário como também os horários e os tempos das funções, as movimentações e os percursos, bem como o modo como devem ser realizados, se lidos ou cantados, por exemplo.

É necessário recordar que além dos latinos, as comunidades oficiais no Santo Sepulcro são: os gregos, os arménios, os coptas e os sírios. Assim, cada mudança, por mais simples que seja, requer o acordo de todas as comunidades. No Santo Sepulcro estas comunidades orientam-se segundo um calendário próprio para cada rito. No que se refere à comunidade católica, os franciscanos seguem as festas segundo o grau de solenidade que precede a reforma do Vaticano II (este foi um direito adquirido no Status quo).

Para melhor compreender tal situação, é necessário analisar alguns acontecimentos históricos. Logo após o seu ingresso em Constantinopla, Maomé II proclamou o Patriarca Grego daquela cidade como autoridade religiosa e civil para todos os cristãos residentes em seu império. Assim a comunidade ortodoxa da Grécia, aproveitando o facto de serem súbditos do império otomano, pode influir na Terra Santa e exercer maior influência sobre os sultões, conseguindo assim, vantagens em seu favor nas negociações referentes aos Santuários. O clero helénico conseguiu progressivamente substituir o clero nativo pelo seu clero grego.

Desde 1634 o Patriarca Ortodoxo de Jerusalém será sempre um helénico. Neste período iniciam também as reivindicações por parte do clero grego sobre os Lugares Santos. Em 1666 o Patriarca Ortodoxo Germano reivindicou os direitos ortodoxos da Basílica de Belém, como fizeram anteriormente os Patriarcas Sofrônio IV (1579-1608) e Teofânio (1608-1644). Semelhantes reivindicações foram feitas em seguida, exigindo o Santo Sepulcro em Jerusalém.

Tais tentativas foram vetadas sobretudo graças à intervenção de Veneza e da França junto à ”Sublime Porta” (assim chamada a instância suprema no Império Otomano).

Em 1633 o Patriarca Teofânio obteve uma assinatura datada do tempo de Omar (638) que conferia ao Patriarca Grego ortodoxo os direitos exclusivos sobre a Gruta da Natividade, o Calvário e a Pedra da Unção. As Potências Ocidentais conseguiram obter, sobre a pressão do Papa Urbano VII, a anulação da assinatura. Todavia, esta assinatura foi emanada uma segunda vez em 1637. Neste mesmo período Veneza, Austrália e Polónia estavam em guerra contra o Império, não tendo assim nenhuma influência a favor dos franciscanos.

A situação tornou-se mais dramática ainda em 1676 quando o Patriarca Dositeo (1669-1707) conseguiu outra assinatura com a qual obteve o uso exclusivo de posse do Santo Sepulcro. Em seguida houve protestos ocidentais, e a Sublime Porta achou por bem nomear um tribunal especial para examinar os diversos documentos. Em 1690, com a oportuna assinatura, foi declarado pelo tribunal que os franciscanos seriam os legítimos proprietários da Basílica. Deste momento em diante as potências ocidentais foram sempre mais activas em relação ao Governo Otomano, para garantir os direitos católicos nos Lugares Santos. Foi assim que se prosseguiu com a paz de Carlowitz (1699), Passarowitz (1718), Belgrado (1739) e Sistow (1791). Todavia os resultados efectivos de tais intervenções não foram grandes.

Em 1767, também na sequência dos muitos confrontos violentos e dos vandalismos que envolveram a população local, os Gregos Ortodoxos e os Franciscanos receberam por parte da Sublime Porta uma assinatura que concedia aos Gregos Ortodoxos a Basílica de Belém, o Túmulo de Maria e quase inteiramente a Basílica do Santo Sepulcro. Não obstante os repetidos apelos do Papa Clemente XIII às potências ocidentais, a assinatura veio confirmada e fixou de maneira já definitiva a situação dos Lugares Santos até os dias de hoje, salvo alguns pequenos detalhes. 

No século XIX a questão dos Lugares Santos transformou-se numa contenda política, especialmente entre a França e a Rússia. A França obteve a proteção exclusiva sobre os direitos dos católicos, e enquanto isso, a Rússia conseguia o mesmo sobre os cristãos ortodoxos. Em 1808 um grande incêndio na Basílica do Santo Sepulcro destruiu quase completamente a edícula cruzada do Sepulcro. 

Os gregos obtiveram a permissão de reconstruir uma nova edícula, a actualmente existente. 

Em 1829 foram reconhecidos aos armênios ortodoxos, de maneira definitiva, os actuais direitos na Basílica. 

Em 1847 os gregos retiraram a estrela de prata situada sob o lugar do nascimento do Senhor na Gruta de Belém. Sobre a estrela, havia uma escrita em latim que atestava assim a propriedade latina do lugar. 

Em 1852, o embaixador francês pediu, junto à Sublime Porta em nome das Potências católicas, reparação dos direitos dos franciscanos anteriores ao ano de 1767 e em particular a recolocação da estrela em Belém. O imperador otomano, com a pressão do Czar Nicolau, refutou e emanou um mandato com o qual decretava que o Status quo (isto é, conforme a situação vigente desde 1767) deveria ser mantido. Daí em diante, não obstante as inúmeras tentativas e as diversas guerras sucessivas a situação permaneceu imutável, ainda que a estrela tenha sido colocada no seu lugar. Nem mesmo depois da ruína do Império Otomano e da criação do mandato britânico o Status quo foi modificado.

Tal situação hoje é considerada um fato conquistado.
•  As relações entre as diversas comunidades cristãs ainda são reguladas pelo Status quo, porém são cordiais e amigáveis.

•  O diálogo ecuménico conseguiu moderar os conflitos históricos.

•  Desapareceu, pelo menos por parte dos católicos, a acusação de “usurpação” dos Lugares Santos. Muito pelo contrário, acredita-se hoje que a pluralidade de presença cristã nesses Lugares contribui para uma riqueza preciosa a preservar.

•  Os periódicos encontros e as relações entre as diversas comunidades, concentram-se hoje, sobretudo sobre o restauro das Basílicas e sobre a possibilidade de uma melhor distribuição das diferentes liturgias.


As decisões são tomadas de comum acordo entre as diferentes comunidades religiosas, sem qualquer intervenção do exterior, sejam elas de carácter político ou civil.

(in, http://pt.custodia.org)

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Jerusalém na Bíblia



JERUSALÉM – Entre um enorme rol de lugares geográficos e no meio de um mapa desenhado pela Bíblia, está uma cidade que se tornou o centro do mundo; Jerusalém. Se o nome da cidade, três vezes santa, é tema de muitas investigações, artigos, de polémicas, na verdade, o que diz dela a Bíblia?



Yerushalaïm no Antigo Testamento
Citada 660 vezes no Antigo Testamento, é mencionada pela primeira vez em Josué, no capítulo 10 “Adonisédec, rei de Jerusalém, soube que Josué tinha conquistado Haï”.

Antes de Josué, o livro de Génesis faz alusão a Jerusalém, chamada Salem ”Melquisedec, rei de Salem, trouxe pão e vinho” (Gen. 14.18). Assim, desde o primeiro Livro, Jerusalém ou Salem tem lugar no rol dos lugares geográficos.

A cidade é muito rica em nomes, sobrenomes, metáforas ao longo dos Livros do Antigo Testamento: Monte Sião, Trono de David, Cidade dos jebuseus, Jebus, Fortaleza de Sião, etc… É no segundo Livro de David, no capítulo 5, que David se instala na Fortaleza e lhe dá o nome de “Cidade de David”. É então que a cidade toma uma outra dimensão, ganhando em importância e poder.

Sem ter de passar em revista a totalidade das 660 menções no Antigo Testamento, este importante número, por si só, torna a cidade um elemento essencial e faz dela o lugar central, uma verdadeira personagem com as suas fraquezas (Isaías 1; 21 “E como! Ela prostituiu-se, a cidade fiel!”) e os seus encantos. (Salmo 136 “Se te esquecer, Jerusalém, que a minha mão direita me esqueça! Quero que a minha língua se cole ao palato se eu deixar de ter a tua lembrança, se eu não levar Jerusalém ao cume da minha alegria”.

Evocam-na como um ser humano tratando-a por tu “Oh! Jerusalém, sobre os teus muros pus guardas.” (Isaías 62). É uma cidade incarnada, viva, humana, santa, que se tornará no lugar Maior da cristandade.

Jerusalém no Novo Testamento
As primeiras menções estão ligadas ao nascimento de Jesus: primeiro em Mateus, capítulo 2, quando o rei Herodes fica Perturbado e “toda  Jerusalém com ele”. Em seguida Lucas faz uma primeira alusão a Jerusalém, quando da aparição do Anjo faz a Zacarias, no Templo (Lc. Capítulo 1, 5). A palavra Jerusalém não aparece, mas o Sacerdote vai oferecer incenso ao Templo. Ora este Templo é em Jerusalém. Lucas precisa mesmo o momento “No tempo do rei Herodes” e mais adiante, capítulo 2 verseto 22 “Quando terminou o tempo prescrito pela lei de Moisés para a Purificação, os pais de Jesus levaram-no a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor” e desta vez nenhuma alusão.

É em seguida, quando Jesus, com doze anos, é encontrado no Templo pelos seus pais que que Lucas menciona de novo Jerusalém: “No fim da festa, quando regressavam, Jesus ficou em Jerusalém, sem que seus pais percebessem.” (Lucas 2:43). É aliás Lucas, que dos quatro Evangelistas, mais menções faz a esta cidade.
Jerusalém tem um lugar central, simbolizando a relação entre Deus e o seu povo. É a cidade que faz Jesus chorar (Lucas, capítulo 19), ela conhece a cólera de Cristo quando este expulsa os vendilhões do Templo depois da sua entrada para a Procissão dos Ramos.

Marcos faz referência a Jerusalém quando da narração da Paixão: a Última Ceia, a prisão, Jesus frente a Pôncio Pilatos, depois a Crucificação e a Morte de Jesus na Cruz. A primeira aparição depois da Ressurreição tem também lugar em Jerusalém.

As 146 menções são, muitas vezes, metáfora: Jesus em Mateus faz referência: “… nem por Jerusalém porque ela é a cidade do grande Rei” As referências a Sião fazem a ligação com o Antigo Testamento.

É João quem evoca as visitas de Cristo a Jerusalém para a festa dos Tabernáculos (cap. 7): “Estava-se já a meio da semana da festa, quando Jesus subiu ao Templo, e aí ensinava”. Quando cura um paralítico em Betesda (cap. 5) “Depois houve uma festa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. Então em Jerusalém, perto da Porta das Ovelhas há uma piscina chamada em Hebreu Betesda. Tem cinco alpendres” e a um cego na piscina de Siloé “Vai, lava-te na piscina de Siloé”.

Depois, nos “Actos dos Apóstolos” Jerusalém é o princípio de tudo: cidade testemunha da Ascensão de Cristo ao Céu, da descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos, dos primeiros anúncios da Boa Nova, do martírio de Santo Estevão.
Jerusalém, para os primeiros cristãos, está no centro.

Por fim, a referência à Cidade Eterna transforma-se em referência a Jerusalém Celeste, aquela que todos os Cristãos tardam a esperar, a que é o verdadeiro lugar de Deus como nos ensinam as Epístolas. A Bíblia abre com uma descrição do Jardim do Eden e termina com a esperança de Jerusalém Celeste. No meio, a cidade é o local de oração das três religiões abraâmicas e local de todas as paixões. Foi lá que tudo começou com o envio dos Apóstolos para correrem o mundo e é aqui que cada um procura voltar.

Eva Maurer Morio


(In, www.pt.lpj.org)

O Santuário da Anunciação e o culto mariano



No coração de peregrinos e viajantes, Nazaré é a “Flor da Galiléia”, que preserva a memória do diálogo entre o arcanjo Gabriel e a Virgem Maria.



Observando a cidade de Nazaré do alto, surge a cúpula da Basílica da Anunciação como uma construção elegante sobre os outros edifícios. A basílica projetada pelo arquiteto italiano Giovanni Muzio, foi construída graças ao trabalho de pedreiros cristãos e muçulmanos de Nazaré. No final da Primeira Guerra Mundial, a Custódia franciscana da Terra Santa, manifestou ao papa Pio IX, o desejo de construir um santuário mais digno, no lugar da Anunciação. Vários anos mais tarde, em 1954, se apresentou a oportuna ocasião com o primeiro centenário da proclamação do dogma da Imaculada Conceição. Para celebrar este aniversário o Custódio franciscano,Giacinto Faccio, decidiu iniciar a construção. O trabalho foi concluido em 23 de março de 1969. A basílica atinge 55 metros de altura, com uma planta de 65x27 metros, e seu tamanho ganhou a reputação de ser o maior monumento cristão no Oriente Médio. A entrada para a basílica inferior é impressionante, e convida à oração. O espaço foi concebido para dar destaque à Gruta e vestígios arqueológicos que a tradição atribui ao local da Anunciação, da Encarnação do Salvador. A centralidade da gruta permite que os visitantes abracem com um único olhar todo o ambiente.

Hoje a Doutrina Mariana é principalmente baseada na “Lumen Gentium”, que apresenta Maria como “Mãe do Salvador” inserida no mistério de Cristo, na Igreja e para a salvação universal. Depois do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI publicou a Exortação Apostólica “Marialis Cultus” para a ordenação e desenvolvimento do culto à Virgem. São João Paulo II, foi um apaixonado pela figura da Virgem, que ele escolheu como lema apostólico “Totus tuus” e consagrou o seu mandato a Maria. Suas mais famosas reflexões marianas estão contidas na encíclica “Redemptoris Mater”, ao passo que na Carta Apostólica “Rosarium Virginis Mariae” em 2003 reviveu a prática do Rosário, enriquecendo o com os “mistérios da luz”. A oração do Rosário é uma das práticas devocionais mais populares. Através desta prática, os fiéis podem compreender e meditar sobre os momentos significativos da vida de Cristo e da Virgem. A oração do Rosário possivelmente teve origem nos mosteiros irlandeses do sec IX., mas a propagação ocorreu nos tempos modernos, graças ao trabalho dos padres dominicanos. Segundo a tradição, a Igreja católica recebeu o Rosário em sua forma atual em 1206 quando a Virgem Maria apareceu a São Domingos Gusmão e o entregou como uma arma poderosa para a conversão dos hereges e outros pecadores daquele tempo. O reconhecimento do Rosário como uma oração da Igreja é o resultado da proclamação do dogma da Imaculada Conceição de Maria. Desde então os papas sempre solicitaram a oração do Rosário em ocasiões importantes na história da Igreja. Hoje os fiéis podem fazer uma peregrinação mística através dos mistérios (Gozosos, Dolorosos, Gloriosos, Luminosos) para contemplar o rosto de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem. Este foi um tema persistente no Pontificado do Papa João Paulo II, claramente expresso na Encíclica “Novo Millennio Ineunte” (2001). Pela recitação do Rosário, muitos cristãos têm respondido ao apelo interior para expressar uma oração contemplativa, capaz de levar o coração a comunhão com o Senhor com simplicidade e pureza: “Rezar o Rosário, na verdade, nada mais é do que contemplar com Maria o rosto de Cristo” (João Paulo II, Rosarium Virginis Mariae).


(In, www.terrasanta.net)

domingo, 9 de outubro de 2016

«Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou»

XXVIII domingo do tempo comum, ano C
9 de Outubro de 2016

EVANGELHO – Lc 17,11-19

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas

«Naquele tempo, indo Jesus a caminho de Jerusalém,
passava entre a Samaria e a Galileia.
Ao entrar numa povoação,
vieram ao seu encontro dez leprosos.
Conservando-se a distância, disseram em alta voz:
«Jesus, Mestre, tem compaixão de nós».
Ao vê-los, Jesus disse-lhes:
«Ide mostrar-vos aos sacerdotes».
E sucedeu que no caminho ficaram limpos da lepra.
Um deles, ao ver-se curado,
voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz,
e prostrou-se de rosto por terra aos pés de Jesus
para Lhe agradecer.
Era um samaritano.
Jesus, tomando a palavra, disse:
«Não foram dez que ficaram curados?
Onde estão os outros nove?
Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus
senão este estrangeiro?»
E disse ao homem:
«Levanta-te e segue o teu caminho;
a tua fé te salvou».



O livro do Levítico, no capítulo XIV, conta de forma muito detalhada cada uma das etapas do ritual a que um leproso se tinha de submeter para que a sua cura fosse reconhecida. São necessários 31 versículos para descrever o que o padre devia fazer para purificar os leprosos: um ritual longo e solene, uma série de gestos, imensas unções, até chegar ao momento culminante do acontecimento, o sacrifício de um cordeiro.

Terminado o ritual, só então o leproso se podia considerar de novo puro (porque a lepra tornava impuro aquele que dela sofria) e podia assim voltar para as tendas e retomar o seu lugar no seio da sociedade.

O significado dos sacrifícios, no Antigo Testamento, é rico em sentido e muito complexo: simplificando pode-se dizer que na base do sacrifício e para lá da ideia de purificação e de expiação, há sempre a ideia de purificação e expiação há também sempre a ideia de “dar”. Dar qualquer coisa a Deus em sinal de gratidão, uma oferenda em sinal de uma aliança restabelecida.

O que lemos na passagem do Evangelho de hoje reenvia-nos precisamente para esta passagem do livro do Levítico: dez leprosos encontram Jesus, suplicam-lhe de longe, pois a lei proibia que chegassem junto de pessoas saudáveis, e Jesus convida-os a que se aproximem dos padres, em Jerusalém para se submeterem ao rito prescrito pelo Levítico. Estes põem-se a caminho, manifestamente curados, mas um deles – um estrangeiro – volta atrás “vendo que tinha sido curado (v. 15) não vendo assim qualquer necessidade de ir ter com os padres, como prescrevia a antiga lei, percebe que não é aí que deve ir para agradecer a Deus. Volta atrás, louvando Deus em voz alta, e lança-se aos pés de Jesus para lhe agradecer.

Jesus reconhece a sua fé – como em outros episódios do Evangelho, em que louva a fé dos estrangeiros – e diz-lhe que a sua fé o salvou.

Que fé? A fé pela qual o leproso estrangeiro compreende que a partir do momento em que Deus procede desta maneira, ou seja directamente na vida dos homens, por intermédio de Jesus, mais nenhum sacrifício é necessário.

A partir do momento em que o Reino de Deus está aqui, entre nós, (Jesus di-lo um pouco mais à frente no versículo 21), não é mais necessário ir aos padres do templo nem submeter-se a todas as prescrições da Lei.

O leproso não se dirige ao templo, não tem mais necessidade de ir fazer sacrifícios, de dar ou levar seja o que for a Deus porque o próprio Deus veio até ele e salvou-o.

Voltando-se para Jesus, realiza uma outra forma de sacrifício daquele que vendo-se curado, reconhece a obra de Deus na sua vida e louva a glória de Deus.

É isto o sacrifício, não dar algo a Deus, mas agradecer tudo o que Ele nos dá. Este sacrifício está ao alcance de todos: o termo “estrangeiro” utilizado por Jesus estava gravado no átrio do Templo de Jerusalém, indicando o limite ente o pátio interior dos pagãos e a parte do templo reservada aos judeus. O antigo sacrifício não era acessível a todos, muitos estavam excluídos.

O novo sacrifício, pelo contrário, é para todos. É para os que sabem reconhecer que a salvação vem de Deus, para os que voltam para Ele, que Lhe dão graças. O caminho para a purificação já não passa por um rito exterior, mas pela fé: “A tua fé salvou-te” (v. 19).

E para isto não é necessária uma grande fé – a fé dos sacrifícios, a observação dos preceitos – mas esta pequena fé, pequena como o grão de mostarda, como vimos no domingo passado (v. 6): uma fé que sabe maravilhar-se, uma fé que sabe dar graças.

No entanto – e nós sabemo-lo – a fé dos sacrifícios é a mais difícil: é o que se vê com Naaman o Sírio mencionado na primeira leitura. Nesta parte do relato, que ouvimos hoje, diz-se que este estrangeiro está convencido que por ter sido curado, deve fazer um qualquer gesto ou realizar uma qualquer expedição, ou dar uma avultada quantidade de dinheiro Ele fica ofendido quando Eliseu lhe diz para se ir lavar no rio Jordão. E no entanto é assim, ele não terá de se banhar no Jordão, terá simplesmente de acreditar.

Mas ele também, depois de ter feito sua a fé dos mais pequenos, vai voltar simplesmente para agradecer: o profeta Eliseu não lhe exige nenhum presente, pelo contrário recusá-lo-á veementemente…

Assim os sacrifícios não salvam, é a fé na salvação que vem do sacrifício de Cristo. E o que é belo neste nesta passagem do Evangelho é que Jesus está a caminho de Jerusalém, como nos diz o evangelista Lucas no versículo 11.

Poderíamos dizer que o leproso não precisa de ir a Jerusalém porque o próprio Jesus se dirigia para lá. A verdadeira subida para a cidade santa para cumprir o sacrifício foi Ele que a fez. E com Ele leva toda a humanidade ferida, perdida que encontra no seu caminho e que traz para casa.

Uma vez chegado a Jerusalém, o seu sacrifício será o de dar a sua vida pelo bem de todos aqueles que encontrou no seu caminho, em perfeita comunhão com a vontade de amor do Pai.

A fé neste amor “purifica” e salva, diz este versículo referindo-se à carta aos Hebreus: “E graças a esta vontade temos sido santificados pela oblação do Corpo de Cristo feita uma vez” (Hebreus 10, 10).

Uma última reflexão: nos Evangelistas, encontramos um outro relato no qual “ o caminho que leva ao sacrifício é interrompido “Quando trouxeres a tua oferta ao altar, e aí te lembrares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta diante do altar e vai reconciliar-te primeiro com o teu irmão e depois vem e apresenta a tua oferta” (Mt. 5, 23-24). Aqui, mais uma vez, como no Evangelho de hoje, a verdadeira gratidão para com Deus, a nova oferta não passa mais por um sacrifício, pela observação da lei, mas por um coração reconhecido e pobre que assim se torna também capaz de misericórdia.


                                                                                                    + Pierbattista